Quem nunca ouviu um grito “Santa
CRUI saindo agora” não sabe o que é um “toyoteiro” desesperado atrás de
passageiros. (risos)
Pra você que não entendeu muito
bem o que eu escrevi, vou explicar. No interior de Pernambuco, jipes são
ampliados em oficinas especializadas numa cidade chamada Brejo da Madre de
Deus, aumentando a capacidade de passageiros. Os “toyotas”, como são chamados,
se transformam numa opção de transporte entre cidades próximas, e por vezes,
até para a capital. Essa modificação no carro é legal, regularizada pelos
órgãos responsáveis. Já se existe fiscalização para que utilizem de maneira
segura, com capacidade correta, aí é outra história, que não vem à minha
reflexão de hoje.
Por ser uma opção mais barata,
atrai um público mais humilde. Mas, por vezes, também é a única alternativa,
quando não há linhas de ônibus entre as cidades. Algo comum, aliás, já que os
“toyotas” dominaram o interior de Pernambuco. Cidades que são polos comerciais,
como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru são os principais destinos
desses veículos saindo de cidades menores.
Geralmente existe um “ponto de
Toyota”, mas basta acenar com a mão, ou um bom grito, que ele vai parando em
beira de estrada, praça, qualquer lugar. Nos dias de feira de sulanca (feira de
confecções) nessas cidades, eles são disputados mais do que coca-cola no
deserto. E vão de cidade em cidade lotados, e ainda com os bagageiros (o teto
do veículo) abarrotados.
Pois bem, quem precisa
utilizá-los diariamente talvez ache um saco, desconfortáveis, inseguros, uma
chatice. Já no meu caso, que viajei poucas vezes, achava o máximo. Eram sempre
ambientes de muita gente interessante e que eu adorava ouvir, observar e por
vezes, entrar naquele mundo. Era divertido.
Aquelas pessoas entendem umas às
outras, falam a mesma língua, sabem os sacrifícios que passam para
comercializar seus produtos, ou para enfrentar feiras em busca de mercadorias.
E por se entenderem tão bem, existe uma espécie de “ética do Toyota” que expõe
qualidades do ser humano, e conceitos do que seria uma sociedade justa e harmoniosa.
Vou exemplificar.
É quase certa a atitude de um
homem, ou mulher mais jovem, em ceder a vaga na parte da frente do veículo para
uma senhora de idade, uma mulher grávida, alguém que tenha alguma dificuldade
de subir na parte de trás, onde as pessoas vão sentadas de lado, e com
mercadorias pelos pés. Nem é lei, como vaga de idosos num estacionamento, por
exemplo. É gentileza mesmo. Ensinamento que vem “de berço”, e bem a cara de
quem nasceu e cresceu no interior, criado respeitando o que diziam os pais.
Isso é bem bacana.
Outra coisa interessante é que
existe uma cumplicidade momentânea. As pessoas conversam assuntos sérios com
desconhecidos que acabaram de se tornar bons amigos, e continuarão assim até os
próximos vinte minutos, quando um deles chegar ao seu destino final, e então voltarão
a ser apenas desconhecidos. Os assuntos podem ir de como lidar com a vizinha
fofoqueira, como ajudar a filha no casamento em que o marido vive bêbado, ou
como dar jeito no filho que não quer estudar. Vale conversar sobre tudo. Eles
compartilham experiências, parecem querer ajudar uns aos outros, e citam
exemplos de dentro de casa, com a história igualzinha a que estão ouvindo. Eles
vivem no mesmo universo. Ah, e jamais se finaliza uma conversa dessas sem um
“vai com Deus”, “Deus tome conta”, “boa sorte”.
Ainda falando em cumplicidade,
outro exemplo. Se a pessoa que está do seu lado tirar um lanche da bolsa, ela
vai te oferecer. Já comi muita pipoca “karintó” e biscoito “treloso” nessas
minhas viagens de toyota. (risos) Mas já segurei criança toda “borrada” pra
ajudar a trocar a fralda do menino também. Não se nega ajuda né? E naqueles
minutos quando somos bons amigos, aí sim, não se nega ajuda aos amigos de jeito
nenhum.
Algumas conversas surreais também
podem ser ouvidas. Certa vez eu fui muito atento à conversa de dois homens
sobre o mercado cinematográfico. Pois é! Quem disse que não rola papo “cult” nos
toyotas da vida? Um deles falou assim: “não é pra qualquer um conseguir fazer
uma bomba com um palito de fósforo e um clip, por isso que esse Van Damme é
contratado pra fazer esses filmes”. Juro! Eu ouvi isso. E pensam que era de
brincadeira? Não mesmo. A conversa seguiu com elogios ao talento do Van Damme,
que também abria portas só com um clip, e por isso contratavam ele para os
filmes. Outro assunto, também certo nas conversas, são as músicas das bandas
momentâneas, além da novela das nove.
O motorista é sempre a figura que
quer lotar o carro, assim terá mais lucro. Por isso, é sempre certo que você
ouvirá tais frases dos passageiros: “cabe mais não, motô”, “se for botar mais
gente eu desço”, “nem no pneu cabe mais gente”...
Mas o motorista não é um vilão
não. Quem pega o toyota na beira da estrada só pra andar uns poucos
quilômetros, às vezes nem paga a corrida, dá um grito “fica pra próxima, Deus
abençoe”, ou coloca umas moedas na mão do motorista, que não são nem
conferidas. E ninguém fica com raiva por isso. É assim mesmo que funciona.
E todas essas pessoas adoram dar
risadas juntas, ou dividir o mesmo lamento, a mesma angústia. São brasileiros,
são seres humanos, tentando ser felizes, como qualquer um de nós. E “fazendo
das tripas, coração” vão sendo mais felizes do que muita gente que se acha mais
do que eles, financeira e intelectualmente falando. Esses passageiros e o
universo em que eles vivem me serviram para ter a certeza de que existem
milhares de mundos dentro desse mesmo mundo. E são mundos interessantes demais,
muitas vezes diferentes de tudo o que podemos imaginar, e mesmo tão próximos de
nós nem conseguimos enxergar que eles existem, o que é uma pena. Essa
diversidade é algo bastante interessante da raça humana, é a possibilidade de
viver várias vidas numa mesma vida.


