domingo, 24 de março de 2013

Toyota: um universo sobre quatro rodas

Quem nunca ouviu um grito “Santa CRUI saindo agora” não sabe o que é um “toyoteiro” desesperado atrás de passageiros. (risos)

Pra você que não entendeu muito bem o que eu escrevi, vou explicar. No interior de Pernambuco, jipes são ampliados em oficinas especializadas numa cidade chamada Brejo da Madre de Deus, aumentando a capacidade de passageiros. Os “toyotas”, como são chamados, se transformam numa opção de transporte entre cidades próximas, e por vezes, até para a capital. Essa modificação no carro é legal, regularizada pelos órgãos responsáveis. Já se existe fiscalização para que utilizem de maneira segura, com capacidade correta, aí é outra história, que não vem à minha reflexão de hoje.
Por ser uma opção mais barata, atrai um público mais humilde. Mas, por vezes, também é a única alternativa, quando não há linhas de ônibus entre as cidades. Algo comum, aliás, já que os “toyotas” dominaram o interior de Pernambuco. Cidades que são polos comerciais, como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru são os principais destinos desses veículos saindo de cidades menores.
 
Geralmente existe um “ponto de Toyota”, mas basta acenar com a mão, ou um bom grito, que ele vai parando em beira de estrada, praça, qualquer lugar. Nos dias de feira de sulanca (feira de confecções) nessas cidades, eles são disputados mais do que coca-cola no deserto. E vão de cidade em cidade lotados, e ainda com os bagageiros (o teto do veículo) abarrotados.
Pois bem, quem precisa utilizá-los diariamente talvez ache um saco, desconfortáveis, inseguros, uma chatice. Já no meu caso, que viajei poucas vezes, achava o máximo. Eram sempre ambientes de muita gente interessante e que eu adorava ouvir, observar e por vezes, entrar naquele mundo. Era divertido.

Aquelas pessoas entendem umas às outras, falam a mesma língua, sabem os sacrifícios que passam para comercializar seus produtos, ou para enfrentar feiras em busca de mercadorias. E por se entenderem tão bem, existe uma espécie de “ética do Toyota” que expõe qualidades do ser humano, e conceitos do que seria uma sociedade justa e harmoniosa. Vou exemplificar.
É quase certa a atitude de um homem, ou mulher mais jovem, em ceder a vaga na parte da frente do veículo para uma senhora de idade, uma mulher grávida, alguém que tenha alguma dificuldade de subir na parte de trás, onde as pessoas vão sentadas de lado, e com mercadorias pelos pés. Nem é lei, como vaga de idosos num estacionamento, por exemplo. É gentileza mesmo. Ensinamento que vem “de berço”, e bem a cara de quem nasceu e cresceu no interior, criado respeitando o que diziam os pais. Isso é bem bacana.


Outra coisa interessante é que existe uma cumplicidade momentânea. As pessoas conversam assuntos sérios com desconhecidos que acabaram de se tornar bons amigos, e continuarão assim até os próximos vinte minutos, quando um deles chegar ao seu destino final, e então voltarão a ser apenas desconhecidos. Os assuntos podem ir de como lidar com a vizinha fofoqueira, como ajudar a filha no casamento em que o marido vive bêbado, ou como dar jeito no filho que não quer estudar. Vale conversar sobre tudo. Eles compartilham experiências, parecem querer ajudar uns aos outros, e citam exemplos de dentro de casa, com a história igualzinha a que estão ouvindo. Eles vivem no mesmo universo. Ah, e jamais se finaliza uma conversa dessas sem um “vai com Deus”, “Deus tome conta”, “boa sorte”.
Ainda falando em cumplicidade, outro exemplo. Se a pessoa que está do seu lado tirar um lanche da bolsa, ela vai te oferecer. Já comi muita pipoca “karintó” e biscoito “treloso” nessas minhas viagens de toyota. (risos) Mas já segurei criança toda “borrada” pra ajudar a trocar a fralda do menino também. Não se nega ajuda né? E naqueles minutos quando somos bons amigos, aí sim, não se nega ajuda aos amigos de jeito nenhum.
Algumas conversas surreais também podem ser ouvidas. Certa vez eu fui muito atento à conversa de dois homens sobre o mercado cinematográfico. Pois é! Quem disse que não rola papo “cult” nos toyotas da vida? Um deles falou assim: “não é pra qualquer um conseguir fazer uma bomba com um palito de fósforo e um clip, por isso que esse Van Damme é contratado pra fazer esses filmes”. Juro! Eu ouvi isso. E pensam que era de brincadeira? Não mesmo. A conversa seguiu com elogios ao talento do Van Damme, que também abria portas só com um clip, e por isso contratavam ele para os filmes. Outro assunto, também certo nas conversas, são as músicas das bandas momentâneas, além da novela das nove.
O motorista é sempre a figura que quer lotar o carro, assim terá mais lucro. Por isso, é sempre certo que você ouvirá tais frases dos passageiros: “cabe mais não, motô”, “se for botar mais gente eu desço”, “nem no pneu cabe mais gente”...
Mas o motorista não é um vilão não. Quem pega o toyota na beira da estrada só pra andar uns poucos quilômetros, às vezes nem paga a corrida, dá um grito “fica pra próxima, Deus abençoe”, ou coloca umas moedas na mão do motorista, que não são nem conferidas. E ninguém fica com raiva por isso. É assim mesmo que funciona.
E todas essas pessoas adoram dar risadas juntas, ou dividir o mesmo lamento, a mesma angústia. São brasileiros, são seres humanos, tentando ser felizes, como qualquer um de nós. E “fazendo das tripas, coração” vão sendo mais felizes do que muita gente que se acha mais do que eles, financeira e intelectualmente falando. Esses passageiros e o universo em que eles vivem me serviram para ter a certeza de que existem milhares de mundos dentro desse mesmo mundo. E são mundos interessantes demais, muitas vezes diferentes de tudo o que podemos imaginar, e mesmo tão próximos de nós nem conseguimos enxergar que eles existem, o que é uma pena. Essa diversidade é algo bastante interessante da raça humana, é a possibilidade de viver várias vidas numa mesma vida.

sábado, 23 de março de 2013

O fantástico mundo da criança

Quando a gente dá uma pausa na correria do dia-a-dia, é inevitável ficar refletindo sobre a vida, presente, passada, ou o que planejamos para os próximos passos, sejam pessoais ou profissionais.
 
Pois bem, em um desses momentos, recentemente, me lembrei do dia em que meu pai chegou em casa com uma impressora, e na imagem ilustrativa da caixa tinha uma flor sendo impressa. Lembro bem que era vermelha, lembro exatamente da figura. Quando vi essa caixa, imaginei que qualquer coisa que eu quisesse sairia daquela máquina. Eu não sabia que era uma impressão no papel, pensava que as coisas saíam de dentro da impressora. Achei aquilo fantástico. Imagine só, eu tinha na minha casa uma "máquina de fazer tudo", chego a lembrar do sentimento que tive com aquela constatação, chego a sentir um pouco, novamente, o que senti naquele dia.
 
 
 
A mente de uma criança é algo puro, sem as malícias desse mundo adulto. Não deveríamos perder completamente essa inocência com o passar dos anos. A vida seria mais leve e divertida. E que bom teria sido se eu não tivesse descoberto tão rápido que daquela máquina não sairia tudo que eu queria. (risos) Poderia ter curtido um pouco mais aquele sentimento.