sábado, 13 de julho de 2013

Prazer em conhecer, Aspirina

Vez por outra a gente escuta, ou mesmo vive, alguma história que envolve o tal do ciúme. As definições para este sentimento passam por inveja, zelo de amor, despeito. Há quem defenda que existe o ciúme saudável, aquele de quem está tendo cuidado com quem ama, e o doentio, quando se começa a querer moldar a vida do outro. Bem, cada um com suas teses. Mas quando o ciúme acaba gerando brigas e desentendimentos é preciso encontrar um jeito de driblar a situação ou, certamente, aquela relação – de amizade ou de amor – estará ameaçada.
 
Pois bem. Dia desses, me deparei com uma “técnica” no mínimo inusitada. Estava fazendo uma reportagem com minha equipe de externa, formada por motorista/auxiliar e cinegrafista. Concluímos as gravações e voltamos para o carro da TV. Ao entrar no banco de trás, vi que o celular do motorista, que ele havia deixado dentro do veículo, estava chamando. Peguei o aparelho e fui levar pra ele, que ainda estava guardando os equipamentos na mala.
 
Olha Jorge, estão te ligando. – olhei indiscretamente o visor e continuei – É a... a... bem, acho que a Amoxilina te ligando. – concluí, tendo a certeza de que os pais não têm mesmo limites ao batizarem seus filhos indefesos.
 
Jorge deu uma risada e atendeu ao telefone. Mas ele não a cumprimentou com o nome do antibiótico. Usou um “Thaís”.
 
Então... Thaís queria marcar para sair com o grupo de estudos do qual eles faziam parte. Combinaram, e encerraram a ligação.
 
– Amoxilina? – perguntei antes que desse tempo dele respirar.
 
Outra risada.
 
– Espera aí que te explico. Primeiro tenho que avisar a Dimeticona e a Aspirina sobre o encontro.
 
– Hein? – Eu sabia que eu estava muito cansado, quase sem saber se aquela manhã era real, ou se eu estava na minha cama, deitado, dormindo, e sonhando tudo aquilo. Mas, ainda que em sonho, queria tirar aquela história “a limpo”.
 
Feitas as ligações para Bianca Dimeticona e Luiza Aspirina, veio a explicação.
 
– Ciúmes, Lael, o problema é ciúmes.
 
Explico. A namorada de Jorge era tão ciumenta, mas tão ciumenta, que ele não podia ter uma amiga mulher sequer. E como algumas discussões começaram com ela pegando o celular dele enquanto estava chamando, ele resolveu fazer a troca dos nomes. Assim, ele teria justificativa de que era um alarme, avisando a hora de tomar o remédio. Olhe mesmo que “presepe”.
 
– Fala sério! Ninguém cai nessa.
 
– Pode crer! Já me livrei de algumas dores de cabeça graças aos meus “remédios”. Garantiu.
 
Fiquei imaginando que o “jeitinho brasileiro” se reinventa a cada dia. Ô povo criativo. Se bem que essa técnica requer todo um estudo para ser aplicada. Afinal, ele precisava decorar quem era quem, pra não chamar de Thaís quando Dimeticona estivesse ligando, ou confundir Aspirina com Bianca.

 
 
Não perguntei qual o critério para batizar as moças. Mas tive a certeza de que se eu fosse fazer isso com os meus contatos, já teriam Diazepan e Benegripe, fácil, fácil. Aliás, Diazepan seria bem concorrido. Talvez criasse o 1, 2, 3, ou fosse diferenciando por letras.
 
Bem, acho que qualquer hora a namorada de Jorge vai suspeitar que ele não está tão doente assim, precisando de tanto remédio. Ou, se ela descobrir, ele vai precisar de remédio de verdade. Certamente, no dia que ele ligar para os amigos precisando de emplastro sabiá e massageol, a gente vai saber que ele não está se referindo à pessoas de verdade, e que a namorada não gostou da técnica dele.
 
Pois é meus amigos, cada um com sua criatividade. Atire a primeira pastilha Valda quem nunca inventou uma dessas né?

P.S: Podiam criar um novo segmento de nomes para o funk, usando os nomes dos remédios. Afinal, quase não existem mais disponíveis no mercado nomes de frutas para as novas funkeiras. Dani Neosaldina, Fabi Dipirona, dançarinas do Mc Tylenol. De repente pega. Vou patentear.

domingo, 7 de abril de 2013

Tem confusão que vem a cavalo

Era início de uma tarde de verão em Buenos Aires, um sol de “queimar o couro”, como diriam meus avós, e eu do lado de fora do Museu Nacional de Belas Artes esperando na fila a minha vez de entrar, junto aos amigos brasileiros que tinha acabado de conhecer no Cemitério da Recoleta (nunca imaginei que faria amizade em cemitérios, essa vida tem de tudo). Não sou o maior apreciador de exposições do tipo, museus não são minha principal programação nas viagens, mas como um bom turista não ia perder a oportunidade de apreciar obras de grandes nomes da arte. Van Gogh, Renoir, Manet, Picasso, o patrimônio do museu é grandioso, considerado o mais importante da Argentina.

Pois bem, entramos e nos dividimos entre os salões. As obras são mesmo de uma beleza incrível, única. Já pensou quantos dias, meses, ou anos, talvez, para se esculpir uma pequena estátua ou pintar uma enorme tela daquelas? Fico imaginando quem seriam aquelas pessoas, se seria prazeroso ou incômodo posar para um artista durante longos períodos, e se eles tinham ideia de que aquela obra iria atravessar séculos para ser vista por "curiosos da vida de antigamente". Aqueles traços, aquelas cores, trazem um pouco de um período e espaço em que não vivemos, e nos dão a chance de sentir um pouco o que era aquele estilo de vida que desconhecemos. Acho isso bem interessante.
Cansado, depois de visitar alguns salões, voltei para o início do prédio. Lá existem grandes bancos encostados na parede, certamente para idosos (como eu) descansarem as pernas um pouco. Me sentei ao lado de uma senhora, devia ter uns 80 anos. Muito bem arrumada, cabelos brancos, curtos e cacheados, óculos, joias, uma bolsa pendurada e uma bengala do lado.
Não há nada pior que esperar. – disse num espanhol bem carregado.
Olhei pro lado, não sabia se ela estava pensando alto, ou queria interação.
Você não acha? – completou.
Sim, ela queria interagir. E eu, enganado, como muitos, achando que espanhol e português são semelhantes, resolvi entrar na conversa.
Claro que sim. Não há nada pior.
Que horas são agora?
Ela falava em espanhol, mas eu entendia que era uma beleza (ou pensava que entendia).
Quatro e quinze (da tarde). – respondi.
Ela fez cara de raiva.

Marquei com uma amiga, já está mais de meia hora atrasada.

Pensei que se a amiga tivesse a mesma idade dela estaria mais que justificado. Não deve ser fácil sair por aí de bengala.

É brasileiro? – perguntou ela, já demonstrando que a conversa agora era comigo até a amiga chegar.

Sim, sou brasileiro.

Vacaciones? – Eis a palavra da discórdia.

Pensei que ela estava perguntando se eu estava na Argentina a trabalho. Vacaciones > Vocação > Profissão > Trabalho. Eu tinha feito a ligação “perfeita” entre as palavras. Só que não.

Não. Não estou a trabalho, estou passeando, de férias.

Veio a caballo?

Não senhora. É isso que estou a lhe explicar. Não vim a trabalho. – ela fingiu entender, eu também.

É muito bonita sua profissão! – exclamou ela com um sorriso no rosto.

Oi? Minha profissão? Eu nem tinha uma carteira de jornalista pendurada no pescoço.
Adoro caballos! Mas você veio de lá para cá a caballo?
Alguma coisa estava saindo errada na conversa.
Eu vim de férias mesmo, não vim a trabalho.
­Hum, que aventura! – disse ela toda empolgada.
Eu daria um beijo em quem me “acudisse” naquela conversa. De qual aventura ela estava falando?

Quantos caballos você tem?

Com essa frase dita, conclui a diferença entre as palavras. E sim, ela estava falando de cavalos.

Eu não tenho cavalos. – respondi, objetivo, pra ver se dava um rumo à conversa.
Mas como não? Você não veio do Brasil a cavalo? É muito corajoso. Parabéns!

Nossa Senhora do Google Tradutor, abençoa.
Não senhora, acho que nos perdemos na conversa. Não vim a cavalo, e nem a trabalho. Estou de férias! Onze meses nós trabalhamos, um mês nós saímos de férias. Consegue compreender?
Não tem nada de caballos então? – Mostrou-se decepcionada após colocar as mãos pra frente e fazer uma espécie de “pocotó, pocotó” para que eu tivesse certeza do que ela falava.
Não senhora, nem unzinho.
Quase não paramos mais de gargalhar. Ela era uma simpatia.

Vacaciones! – Ah, bendita palavra. – É que chamamos de “vacaciones” o que você chama de “férias”.

Entendi. Então, sim! Estou aqui na Argentina por motivos de “vacaciones”.

Continuamos rindo muito até que uma outra senhorinha se aproximou. Era a amiga dela. Tomou bronca, e insistiu logo em ir andar pelo museu.

Um momento. Este é meu amigo do Brasil que estava comigo enquanto você não chegava. Espere que vou me despedir. – Olha que senhorinha mais atenciosa. – Foi um prazer conversar com você, bom passeio... – até aí tudo bem – ...e sua profissão é linda, parabéns!
Hããã? Eu não tinha falado minha profissão em momento algum. Em que será que ela pensou que eu trabalhava depois dessa confusão toda?

Acenei com a cabeça, agradeci o elogio à minha profissão (seja lá qual for que ela tenha imaginado). Ela deu as costas e saiu. Fiquei rindo horas da situação, e nem pude ter raiva de quem “inventou” que vacaciones corresponde a férias. Pois essa confusão me gerou boas risadas. Até hoje fico pensando o quanto é bom essas situações, conversas "descompromissadas", assuntos saudáveis, bobos, às vezes. Num mundo que gira com tanta notícia ruim, em que vivemos sob stress, pressão, números, como é bom parar, dar risada, e sentir um pouco o real motivo de se estar vivo.

domingo, 24 de março de 2013

Toyota: um universo sobre quatro rodas

Quem nunca ouviu um grito “Santa CRUI saindo agora” não sabe o que é um “toyoteiro” desesperado atrás de passageiros. (risos)

Pra você que não entendeu muito bem o que eu escrevi, vou explicar. No interior de Pernambuco, jipes são ampliados em oficinas especializadas numa cidade chamada Brejo da Madre de Deus, aumentando a capacidade de passageiros. Os “toyotas”, como são chamados, se transformam numa opção de transporte entre cidades próximas, e por vezes, até para a capital. Essa modificação no carro é legal, regularizada pelos órgãos responsáveis. Já se existe fiscalização para que utilizem de maneira segura, com capacidade correta, aí é outra história, que não vem à minha reflexão de hoje.
Por ser uma opção mais barata, atrai um público mais humilde. Mas, por vezes, também é a única alternativa, quando não há linhas de ônibus entre as cidades. Algo comum, aliás, já que os “toyotas” dominaram o interior de Pernambuco. Cidades que são polos comerciais, como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru são os principais destinos desses veículos saindo de cidades menores.
 
Geralmente existe um “ponto de Toyota”, mas basta acenar com a mão, ou um bom grito, que ele vai parando em beira de estrada, praça, qualquer lugar. Nos dias de feira de sulanca (feira de confecções) nessas cidades, eles são disputados mais do que coca-cola no deserto. E vão de cidade em cidade lotados, e ainda com os bagageiros (o teto do veículo) abarrotados.
Pois bem, quem precisa utilizá-los diariamente talvez ache um saco, desconfortáveis, inseguros, uma chatice. Já no meu caso, que viajei poucas vezes, achava o máximo. Eram sempre ambientes de muita gente interessante e que eu adorava ouvir, observar e por vezes, entrar naquele mundo. Era divertido.

Aquelas pessoas entendem umas às outras, falam a mesma língua, sabem os sacrifícios que passam para comercializar seus produtos, ou para enfrentar feiras em busca de mercadorias. E por se entenderem tão bem, existe uma espécie de “ética do Toyota” que expõe qualidades do ser humano, e conceitos do que seria uma sociedade justa e harmoniosa. Vou exemplificar.
É quase certa a atitude de um homem, ou mulher mais jovem, em ceder a vaga na parte da frente do veículo para uma senhora de idade, uma mulher grávida, alguém que tenha alguma dificuldade de subir na parte de trás, onde as pessoas vão sentadas de lado, e com mercadorias pelos pés. Nem é lei, como vaga de idosos num estacionamento, por exemplo. É gentileza mesmo. Ensinamento que vem “de berço”, e bem a cara de quem nasceu e cresceu no interior, criado respeitando o que diziam os pais. Isso é bem bacana.


Outra coisa interessante é que existe uma cumplicidade momentânea. As pessoas conversam assuntos sérios com desconhecidos que acabaram de se tornar bons amigos, e continuarão assim até os próximos vinte minutos, quando um deles chegar ao seu destino final, e então voltarão a ser apenas desconhecidos. Os assuntos podem ir de como lidar com a vizinha fofoqueira, como ajudar a filha no casamento em que o marido vive bêbado, ou como dar jeito no filho que não quer estudar. Vale conversar sobre tudo. Eles compartilham experiências, parecem querer ajudar uns aos outros, e citam exemplos de dentro de casa, com a história igualzinha a que estão ouvindo. Eles vivem no mesmo universo. Ah, e jamais se finaliza uma conversa dessas sem um “vai com Deus”, “Deus tome conta”, “boa sorte”.
Ainda falando em cumplicidade, outro exemplo. Se a pessoa que está do seu lado tirar um lanche da bolsa, ela vai te oferecer. Já comi muita pipoca “karintó” e biscoito “treloso” nessas minhas viagens de toyota. (risos) Mas já segurei criança toda “borrada” pra ajudar a trocar a fralda do menino também. Não se nega ajuda né? E naqueles minutos quando somos bons amigos, aí sim, não se nega ajuda aos amigos de jeito nenhum.
Algumas conversas surreais também podem ser ouvidas. Certa vez eu fui muito atento à conversa de dois homens sobre o mercado cinematográfico. Pois é! Quem disse que não rola papo “cult” nos toyotas da vida? Um deles falou assim: “não é pra qualquer um conseguir fazer uma bomba com um palito de fósforo e um clip, por isso que esse Van Damme é contratado pra fazer esses filmes”. Juro! Eu ouvi isso. E pensam que era de brincadeira? Não mesmo. A conversa seguiu com elogios ao talento do Van Damme, que também abria portas só com um clip, e por isso contratavam ele para os filmes. Outro assunto, também certo nas conversas, são as músicas das bandas momentâneas, além da novela das nove.
O motorista é sempre a figura que quer lotar o carro, assim terá mais lucro. Por isso, é sempre certo que você ouvirá tais frases dos passageiros: “cabe mais não, motô”, “se for botar mais gente eu desço”, “nem no pneu cabe mais gente”...
Mas o motorista não é um vilão não. Quem pega o toyota na beira da estrada só pra andar uns poucos quilômetros, às vezes nem paga a corrida, dá um grito “fica pra próxima, Deus abençoe”, ou coloca umas moedas na mão do motorista, que não são nem conferidas. E ninguém fica com raiva por isso. É assim mesmo que funciona.
E todas essas pessoas adoram dar risadas juntas, ou dividir o mesmo lamento, a mesma angústia. São brasileiros, são seres humanos, tentando ser felizes, como qualquer um de nós. E “fazendo das tripas, coração” vão sendo mais felizes do que muita gente que se acha mais do que eles, financeira e intelectualmente falando. Esses passageiros e o universo em que eles vivem me serviram para ter a certeza de que existem milhares de mundos dentro desse mesmo mundo. E são mundos interessantes demais, muitas vezes diferentes de tudo o que podemos imaginar, e mesmo tão próximos de nós nem conseguimos enxergar que eles existem, o que é uma pena. Essa diversidade é algo bastante interessante da raça humana, é a possibilidade de viver várias vidas numa mesma vida.

sábado, 23 de março de 2013

O fantástico mundo da criança

Quando a gente dá uma pausa na correria do dia-a-dia, é inevitável ficar refletindo sobre a vida, presente, passada, ou o que planejamos para os próximos passos, sejam pessoais ou profissionais.
 
Pois bem, em um desses momentos, recentemente, me lembrei do dia em que meu pai chegou em casa com uma impressora, e na imagem ilustrativa da caixa tinha uma flor sendo impressa. Lembro bem que era vermelha, lembro exatamente da figura. Quando vi essa caixa, imaginei que qualquer coisa que eu quisesse sairia daquela máquina. Eu não sabia que era uma impressão no papel, pensava que as coisas saíam de dentro da impressora. Achei aquilo fantástico. Imagine só, eu tinha na minha casa uma "máquina de fazer tudo", chego a lembrar do sentimento que tive com aquela constatação, chego a sentir um pouco, novamente, o que senti naquele dia.
 
 
 
A mente de uma criança é algo puro, sem as malícias desse mundo adulto. Não deveríamos perder completamente essa inocência com o passar dos anos. A vida seria mais leve e divertida. E que bom teria sido se eu não tivesse descoberto tão rápido que daquela máquina não sairia tudo que eu queria. (risos) Poderia ter curtido um pouco mais aquele sentimento.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O "sabor" da merenda latina

Era fim de tarde, eu acabava de embarcar no “BuqueBus” em Colonia del Sacramento, no Uruguai, para retornar a Buenos Aires, na Argentina, onde estava de férias. “BuqueBus” é, na verdade, o nome da empresa de barcos que faz vários trechos entre Argentina e Uruguai, mas percebi que as pessoas chamavam a embarcação por este nome, ainda que fosse de outra empresa, como nosso “Leite Moça” ou “Bombril” (comparação tosca, mas deu pra entender, né?), por ser a “BuqueBus” a maior delas.

Tinha passado um dia incrível em Colonia. É sem dúvida um dos lugares mais lindos que já fui, e tem uma energia diferente, positiva. Não há palavras que expliquem o que se sente andando pelo centro histórico, aquelas casas antigas, as ruas de paralelepípedo, as cantinas com cheiro bom de comida sendo feita, o farol, e o Rio da Prata banhando toda extensão. Parece que estamos numa cidade cenográfica de novela, onde a vida é tranquila e feliz. Minha vontade era sentar numa calçada daquelas e esperar a vida passar. Só indo lá pra me entender, é preciso mais que definições, é preciso sentir.






Pois bem. Ao embarcar, subi as escadas para procurar um assento. Os barcos são grandes, têm dois andares. Há lanchonetes, café, e free shop a bordo. Não tenho ideia da capacidade, mas, certamente, bem mais que um avião que faça viagens domésticas, mais de 200 pessoas. Achei uma fileira vazia e preferi sentar ali, assim ficaria na janela, e faria a viagem olhando para a imensidão do rio. Apoiei minha mochila no canto e o barco começou a se mover.
 
Logo apareceram duas pessoas, uma mulher e um menino. “Los asientos están ocupados?”, perguntou a mulher. Respondi que não, e eles sentaram. Eram duas figuras incríveis, saídas de algum filme, ou de algum século distante. Aparentavam não ter muitos recursos, e certamente não estavam utilizando o “BuqueBus” a passeio, como eu, mas como um transporte necessário.
A mulher era branca e alta, bem magra, vestia uma roupa florida e um suéter azul escuro de lã. Na cabeça um lenço amarrado parecia esconder o pouco trato com os cabelos, curtos e cacheados. O menino se chamava Tomaz, e devia ter uns sete anos de idade. Ele era bem branco, magrinho, tinha orelhas de abano, vestia um pijama, e seus óculos “fundos de garrafa” eram como de mergulho, um elástico prendia à cabeça.
Tomaz queria ver o rio de todo jeito e quase passou por cima de mim, com aquela naturalidade de criança, quando a mulher, que aí entendi que era sua mãe, o puxou de volta. Ela falou algo como “não há lugar para todos, assim é a vida”. “Por favor, mamá”, insistiu o garoto, mas não houve acordo.  Eu disse que não tinha problema que ele se encostasse na janela, mas ela disse que não, de maneira educada. A forma como ela transmitia noções de educação e afeto passou me chamar atenção.
O menino era uma espoleta, não parava quieto, como uma criança normal na idade dele. Queria vestir os coletes salva-vidas que ele "descobriu" embaixo das poltronas. Então, acho que na tentavida de distraí-lo, a mãe disse que havia comprado uma “merenda” para eles. Tomaz comemorou com aplausos e gritos. A cena que seguiu me chamou muita atenção. Ela preparou todo aquele momento, toda aquela “ceia”. Abriu a bandeja da poltrona da frente explicando que ali colocaria a “merenda”, pois havia sido feita para isto. Tirou da bolsa uma garrafa de alumínio, como essas que usamos na academia. A garrafa estava meio desbotada, meio velha.
Em seguida, pegou um copinho de plástico dizendo que estava com sede, e listando as qualidades da água, “gelada”, “fresquinha”, que fazia muito bem bebê-la. O menino observava, mas sem parar um minuto de fazer perguntas sobre tudo aquilo – "quem inventou essas bandejas? onde conseguiu a água?"... – e mostrava entusiasmo com aquele momento. Até que ela tirou da bolsa o lanche deles. Era um pedacinho quadrado de doce, uma mariola dessas que conhecemos, bem pequena. Embrulhada num plástico transparente e com a etiqueta do preço: “$2”. Havia custado dois pesos, não sei se uruguaios ou argentinos, mas algo que corresponde a centavos do nosso Real. Tomaz perguntou onde ela havia conseguido dinheiro para comprar, ela disse que tinha algum sobrando. Eles dividiram aquela única mariola como se fosse um grande banquete, “es una delicia”, “humm”. E o garoto oferecia para mãe, mandava que ela desse mais uma mordida, e intercalavam com pequenos goles de água. Isso durou alguns minutos. Só eu sei como achei aquela cena fantástica. ERA SÓ UMA MARIOLA, E ÁGUA DE UMA GARRAFA ENFERRUJADA. Pelo menos era o que eu pensaria, até aquele dia. Pois não, não era só isso, eram dois seres humanos que dividiam um belo sentimento entre si. Um amor verdadeiro de quem cuida do outro, e que estavam transformando alguns minutos da vida deles num momento especial e feliz.
Como reação natural de uma criança, Tomaz pediu outra, e a mãe explicou que não tinha. Ele lamentou, mas entendeu, e ajudou a arrumar a “bagunça”. Guardaram tudo e fecharam a bandeja. Sempre se beijavam e se abraçavam. Minha cabeça “processava” tantos pensamentos que não tive reação de conversar com eles para saber mais sobre o que estavam indo fazer em Buenos Aires, em que trabalhava a mulher, onde estava o pai do menino, enfim, eu só observava.
A mãe tirou da bolsa um netbook, também meio velho, e deu para Tomaz brincar. Eles fez riscos aleatórios no “paint” sob supervisão e elogios da mãe. Dizia que estava lindo, que ele seria um grande artista, bastava se aperfeiçoar. Ela cuidava dele como se fosse o que tinha de mais valioso.
Então, ela me disse que iria dar uma volta no barco e perguntou se eu poderia guardar os assentos. Eu disse que sim, e eles saíram. Não voltaram mais.
Quando vi pela janela Buenos Aires se aproximando também me levantei e fui ao free shop comprar umas bobagens. O barco atracou, e todas aquelas centenas de pessoas se voltaram para saída. Ainda os vi esperando a fila andar na hora do desembarque. Mas não consegui mais me aproximar. Queria ter conversado, queria ter ajudado de alguma forma. Mas durante o momento que estive próximo, eu não consegui reagir, me pergunto o motivo até hoje, mas acho mesmo que foi porque meus pensamentos estavam em alta velocidade. Quem me dera ter um pacote de mariolas, e saber que aquela cena que presenciei se repetiria no futuro por mais dez ou quinze vezes.
 
Tomaz e sua mãe me fizeram valorizar mais momentos com as pessoas que amo, e me fizeram aprimorar conceitos sobre o “valor” de bens materiais. Fiquei imaginando como o "almoço em família" saiu de moda nesse mundo contemporâneo onde não temos mais tempo pra nada, e como isso pode interferir de maneira geral nas relações entre as famílias. Aquela merenda tão simples, ganhou um "sabor" que deveríamos ter em tudo que fazemos.
Tomara que eles sigam felizes como me transpareceram ser. Torço por isso.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Fui no paraíso e voltei, mais sábio

Era uma bela manhã de domingo em Fernando de Noronha – PE, e chegava a hora de me despedir daquele paraíso. Havia passado toda semana realizando um trabalho para TV Golfinho, a emissora que produz um jornal local exibido apenas no arquipélago. O voo de volta para Recife era às 11h, então deixei o hotel às 9h e me dirigi ao aeroporto. É um pequeno terminal com dois guichês das companhias aéreas que operam o destino, duas lojinhas com artesanatos e outras lembranças da ilha, e uma lanchonete.

Chegando lá fui direto fazer o check-in e despachar minha bagagem, tudo normal, procedimentos que fazemos em qualquer aeroporto do mundo. Feito isso, resolvi esperar do lado de fora do terminal. O ar condicionado estava quebrado e lá fora estava mais ventilado, além disso, ficaria observando um pouco mais aquele lugar. Me sentei na rampa de acesso à porta onde também estavam encostados dois moradores da ilha. Na verdade eles eram taxistas, tinham “buggues” que atendiam a demanda no horário dos voos. Fiquei observando e ouvindo a conversa deles, até um momento que me surpreendi.
-Será que o “bichão” vem hoje?
-Nem sei, esses dias teve problema no pouso, tem muita garça na pista. Eu tenho pra mim que ele não vem não.

-Também acho que hoje ele não vem.
Claro que entendi, na hora, que falavam do avião. O bendito avião que eu estava ali esperando e que me levaria de volta ao continente. Aquilo me soou como algo do tipo: “será que aquele pássaro de ferro que às vezes aparece por aqui vai dar o ar da graça hoje?”.
Achei tão absurda aquela conversa, pensei: “Como assim, ‘será que vem’? Não é assim que funciona. Claro que vem!”. Estou num mundo moderno, civilizado, onde compramos passagens aéreas com simples toques na tela do celular. Existem órgãos que fiscalizam e regulamentam os serviços que usamos, enfim... Achei meio engraçado também, e fiquei pensando de onde que eles tiravam aquelas previsões, aquelas ideias.
Aí, eu pergunto a você que está lendo essa história. Você acha que o avião foi?
 
Pois é! NÃO foi!
Aquilo foi uma tapa na minha cara. Uma lição de como podemos enxergar de maneiras diferentes a mesma situação. E o fato pode ter várias explicações.
Pra mim, no meu “mundo civilizado” houve uma resposta “civilizada”. A comissária de terra da companhia disse que uma aeronave que faria o trecho Recife – Florianópolis havia apresentado problemas, e foi substituída pela que iria para Noronha. Havia sido uma forma de atingir o menor número de passageiros, já que mais de cem pessoas no Recife esperavam a viagem para Floripa, e talvez nem vinte estivessem indo ou voltando para o arquipélago. Essa foi a versão oficial.
Há uma outra. Também da minha cabeça, de quem já presenciou todo tipo de malandragem, ou “jeitinhos brasileiros”. Pra mim, não tinha aeronave quebrada coisa nenhuma. O fato de ter menos de vinte passageiros teria feito a “espertinha” companhia aérea cancelar o voo. Sem dúvida sairia bem mais barato pagar um almoço para aqueles passageiros e os colocar no voo da tarde, do que deslocar uma aeronave com capacidade para quase duzentas pessoas quando a lotação cabia numa van.
E a previsão daqueles taxistas, como explicar? Eles estavam certos, disso eu não tinha dúvida, da maneira deles de interpretação eles acertaram na mosca. Aí, eu aqui no meu “mundo moderno”, posso pensar que aquela situação era algo comum e que eles simplesmente observaram a quantidade de pessoas e deduziram que a companhia cancelaria o voo. Mas será que foi isso? Será que eles tiveram essa dedução consciente, calculada? Talvez sim, talvez não. Talvez eles não tenham certeza do motivo, apenas “sentem” o ambiente, o dia. Como os “descobridores de chuva” que temos nos nossos sertões Brasil a fora. Quem sabe?
 
Aquilo também me fez pensar como tantas outras coisas podem ser vistas de maneiras diferentes por culturas diferentes, mesmo sendo iguais. Quantos povos cultuaram a lua cheia como uma deusa, capaz de curar, de abençoar, de trazer coisas boas. E fizeram rituais para ela, com fogo, com flores, enfim... No nosso “mundo moderno”, na maioria das crenças, a lua não tem esse poder não. É bela, mas não tem poderes.
Mas quem nunca se pegou olhando pra lua cheia, fotografando, indo observá-la na beira do mar. E aquele momento lhe trouxe paz, lhe fez refletir sobre assuntos que estavam na sua cabeça, e que você buscava soluções? Acabamos fazendo uma oração ali, cada um pro seu Deus, pra sua Nossa Senhora “preferida”, pra algum ser que acreditamos estar acima de nós. E então? Essa danada dessa lua tem poder mesmo, né? Seja qual for sua crença. É só questão de interpretação. E se soubéssemos respeitar as interpretações dos outros não estaríamos neste mundo onde matamos uns aos outros.
Bem, Noronha me deu várias lições de vida. É um planeta onde moram cerca de três mil pessoas. Fica fácil d’agente observar as relações humanas quando o planeta é pequeno. Então, depois posto outras histórias de lá. Minhas análises sobre aquele pequeno planeta e a convivência entre seus seres.
Ah, eu tive que esperar mesmo o avião da tarde. Nem demorou! Voltei pra Vila dos Remédios, o centro da ilha, almocei, espiei a internet, e logo deu a hora de voltar ao continente.
 
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quando nem a esperança resiste

Parecia um dia comum de trabalho. Eu estava repórter da afiliada ao SBT em João Pessoa – PB. Pautas de comunidade, o velho “esgoto estourado” onde a população pedia solução para o problema, pautas governamentais, e o fim do expediente quase chegando. Nossa equipe – cinegrafista, motorista/assistente e eu – voltava para a sede da emissora quando meu celular tocou. No visor vi que era a editora-chefe, pensei logo “vem bomba por aí, vou ter que esticar o expediente”. Que repórter não pensaria isso (risos).

-Oi. (com tom de desconfiado).
-Preciso que você faça uma história. Desde cedo recebo ligações de uma mulher chamada Lourdes. Ela tenta atendimento desde a madrugada nos hospitais de João Pessoa, já foi em todos e ninguém atende. Anote o celular dela.
Eu queria mesmo largar, estava cansado e sou de carne e osso, mas essa “esticadinha” por uma boa causa era mais confortante. Acho que todo jornalista se enche de felicidade quando percebe que ajuda alguém com seu trabalho. Bem, eu telefonei.
-Alô? Dona Lourdes, por favor.
Uma voz fraca atendeu do outro lado. Expliquei que era repórter e que minha chefe havia mandando que eu fosse acompanhar a história dela de perto. Anotei o endereço e nos dirigimos ao hospital, o segundo maior da capital.
Ao chegar lá vi que havia um Gol branco (daqueles quadrados, antigos) estacionado na porta da recepção, aquela área coberta onde as ambulâncias param. Um senhor no banco do motorista, uma senhora no banco do passageiro que estava deitado, e uma mulher mais jovem do lado de fora do carro segurando a mão dessa senhora.
Falei pra moça: - Sou da TV, dona Lourdes é esta senhora?
Era ela sim. E neste momento ela “apagou”, como alguém que guardou até o último estímulo de energia para saber que estaria “protegida” com a chegada da imprensa. Começava ali uma das cenas mais tristes que já presenciei na vida.
A mulher mais jovem era filha e o senhor no banco do motorista era marido de dona Lourdes. Também havia uma criança, um menino de uns nove anos, neto dela. Eram quase cinco horas da tarde. Eles haviam saído às quatro da manhã de casa, peregrinado por todos os hospitais da cidade, que diziam não poder atender por falta de vaga ou por não ser prioridade. Era a segunda vez que estavam naquele hospital, no mesmo dia. Dona Lourdes tinha algo mais avançado que hérnia de disco, já não andava mais, sentia dores muito fortes e aguardava há meses uma cirurgia pelo SUS.
A filha passou a gritar desesperada que a mãe estava morrendo, e que não podia aceitar que a falta de uma maca impedisse que ela fosse atendida. Havia sido essa a justificativa do hospital em não ter retirado ela do carro em momento algum. Mas foi após, ou por causa, da chegada da nossa equipe que uma maca e dois enfermeiros apareceram. Em meio ao desespero da família, dona Lourdes foi, enfim, colocada pra dentro do hospital. A filha entrou junto.
Tentei conversar com o marido dela, mas ele quase não conseguia falar, olhava pra baixo, não conseguia sequer olhar no meu olho. Entendi o problema da doença, o trajeto que fizeram e o que escutaram em cada hospital. E eu precisava gravar. Não estava ali como cidadão comum (apesar de também estar), mas tinha um trabalho a ser feito, e o cinegrafista estava registrando tudo o que acontecia. Nessas horas sempre nos perguntamos se estamos fazendo a coisa certa, ou se estamos explorando a dor dos outros. Não sei onde fica a linha entre o “sim” e o “não” em avançar, é algo que depende do que estamos sentindo. Mas fui. Liguei o microfone e me aproximei, tentei tirar mais algumas palavras daquele senhor. Só saia uma palavra de cada vez. Eu tentava entendê-lo, e esperava que ele também entendesse minha insistência.
Poucos minutos depois a filha apareceu saindo na recepção. Veio em linha reta, em direção à câmera, parecia destinada a falar, como se aquela decisão de falar fosse a maior certeza que ela tinha em toda vida. Dona Lourdes havia sofrido uma parada cardiorrespiratória naquele momento em que soube da presença da nossa equipe.
Essa moça chorava muito, mas também tinha raiva na voz. Ela gritava como quem mandava um recado para o mundo inteiro ouvir, para todos os seres que dividem esse planeta com ela.
- Minha mãe está lá dentro, toda cheia de fios, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela está morrendo por que eu não posso pagar um plano de saúde pra ela. Eu não tenho vergonha de dizer isso não, aqui na televisão pra todo mundo ficar sabendo. Eu não posso pagar. Se você é rico e pode, agradeça, se eu pudesse minha mãe não estaria morrendo agora...”
Eu não consegui dar uma palavra sequer. Não foi necessário fazer nenhuma pergunta, e eu nem conseguiria mais, chorava tanto quanto ela, mesmo a dor não sendo minha. Mas de alguma maneira também era. Ela falou muito, foram uns três minutos e meio. Falou de dor, de sofrimento, de injustiça, de corrupção. Tinha um pouco de tudo naquele desabafo. Eu olhava pra ela, e também observava o pai do lado. Ele estava encostado na porta do carro aberta, olhava para o chão, e segurava a mão do neto. Nunca esquecerei a expressão do rosto dele, de alguém que se sentia impotente, derrotado, sem esperanças. Alguém que deve ter trabalhado duro uma vida inteira e talvez até se culpasse por aquele momento, por achar que poderia ter feito mais, ter feito melhor, e ter dado outra realidade de vida a quem amava. Ele conseguia me passar todas essas informações, apenas com o silêncio, e a expressão de seu rosto.
A filha de dona Lourdes continuava o desabafo. Ela falou por muitos, ela clamou por milhões de outras pessoas que dependem do SUS no nosso país. Ela só queria que as coisas funcionassem como deveriam ser. Quando ela parou de falar, baixei o microfone, segurei no braço dela e disse que a mãe ficaria boa, foi o máximo que consegui. Dei meia-volta e entrei no carro da TV. Voltei arrasado pra emissora. Tentei fazer o texto o mais rápido possível, não tinha cabeça para “caprichar”, apesar de a situação merecer. Mas tinha consciência de que aquelas imagens e aquele depoimento valeriam muito mais que qualquer texto. Falei ao editor do jornal que assistisse todo depoimento, que era importante, e ao produtor que monitorasse os boletins do hospital para acompanhar o caso. Fiz meu trabalho. E fugi daquela história.
Eu não soube mais de nada, até hoje. Não acompanhei, não perguntei na redação o que havia acontecido. Não sei se voltaram ao caso e outras equipes foram reportar a continuação dessa história. Fugi mesmo. Aquilo me doeu demais, saber que era verdade, com pessoas de verdade me doeu. Por vezes tenho a reação de fugir da realidade, quando essa vida real é cruel, violenta ou triste. Não acho que seja o melhor a fazer, mas às vezes faço. Sou humano.
Mas esse dia me ensinou muito. Não sei se minhas palavras conseguem passar o que senti, que foi mínimo diante da dor que devia estar sentindo aquela família. Mas vale a reflexão de que precisamos estar atentos à vida. Isso inclui nossas relações uns com os outros, nossa com o mundo, e atenção aos que nos governam. São eles que distribuem o dinheiro que pagamos em impostos e que podem evitar o sofrimento de famílias como a de dona Lourdes. Pessoas que podem salvar vidas, ou acabar com elas. Tantos milhões de pessoas tentando a felicidade, quantos milhões de obstáculos para que elas consigam. Tomara que dona Lourdes tenha melhorado, conseguido a cirurgia, quem sabe até montaram um negócio, um comércio, e estão bem melhores financeiramente. Eu preferi dar esse final a história.