segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sobrevivendo a 7ª série

Era início de ano letivo e uma surpresa - nada agradável - me esperava na 7ª série do ensino fundamental. Na época tínhamos a disciplina “Ciências”, que nas escolas de cidade grande já chamava “Biologia”. Eu achava o termo muito bonito e queria usar, mas tinha que chamar de “Ciências” mesmo, pois era assim na minha escola – matuto querendo gourmetizar o nome da disciplina, mas nem isso podia. (risos) Pois bem, ao comprar o material escolar descobri que naquele ano estudaríamos o corpo humano. Pensei logo: danou-se!

Reprodução/Internet


Mas o que tem demais nisso? É que eu não devo ter sido das crianças mais normais, e eu não podia ouvir falar em doença alguma. Toda novidade sobre o assunto, que eu escutava algum adulto conversando, eu acabava sentindo cada um dos sintomas, ou tendo a doença de verdade. Assim, conheci a catapora, o sarampo... só pra ilustrar. Agora, imagine só quando fosse estudar os pulmões? Pneumonia, tuberculose... E o coração? Ataque cardíaco era o mínimo que me esperava... Então: danou-se! Entendeu?

- Chegarei vivo à unidade IV? Sobreviverei a 7ª série? – Perguntei a mim mesmo.

Não sou o Roberto, mas posso dizer que foram “muitas emoções” neste ano. Eu torcia pra não chegar a terça-feira, dia de quatro aulas seguidas de Biologia Ciências. Era um tormento, e eu achava melhor não olhar o que vinha pela frente, nada de uma espiada nas próximas páginas do livro. Era melhor aproveitar aquele momento, enquanto eu ainda estava vivo.

Recordo bem o dia em que nos foi ensinado as diferenças entre parto normal e uma cirurgia cesariana.

- Uma anestesia é dada próximo à coluna vertebral... Falou a professora.

Nesse momento já tinha sentido a picada bem próximo ao pescoço.

- ... É bem na base da coluna. – Complementou a professora.

A fisgada passou pra baixo imediatamente. (Que criança mais problemática, como pode ter vingado?)

Aí pensei, comigo mesmo, que aquilo não era sintoma de nada, só aconteceria se a pessoa estivesse de fato levando a picada da agulha. Raciocinei. Passou.

Outro dia foi a vez de aprendermos sobre o sistema digestivo... melhor não... apagar.

Pra resumir a ópera, entre trancos e barrancos, cheguei vivo ao final do ano. Não lembro quantas doenças tive ao longo das unidades, mas venci! “We are champions my friends”.

Hoje sou um pouco mais normal. Acho. O medo de agulhas é que é o mesmo. Pra vocês terem uma ideia, em um conhecido laboratório da cidade onde moro, descobri que colocaram uma observação no meu cadastro: “o rapaz que desmaia”. Veja só que absurdo! (risos) Mas isso é assunto pra uma outra crônica.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Bagagem cheia, um skate quase fumado, e um garoto feliz

Era fim de temporada em Los Angeles, na (quase sempre ensolarada) Califórnia, e eu me preparava para retornar ao Brasil depois de um produtivo período de estudo e trabalho. Malas prontas, cheias, e uma última missão: decidir o que fazer com o skate que havia me acompanhado nos últimos meses.



Comprei o meu “Stella” em Venice Beach, a praia mais alternativa que já conheci na vida. Pessoas de todos os estilos circulam por lá. Há muitos artistas expondo seus trabalhos no calçadão, artesãos, músicos, tudo “junto e misturado” como diz a história. Uma boa batucada aqui, e 20 metros depois um violinista ou até mesmo um pianista se apresentando; homens hipnotizando cobras, cachorros que usam óculos escuros, e as lojinhas de maconha... tudo no pacote de Venice. A praia também é um dos destinos preferidos dos skatistas por ter uma estrutura bacana para prática do esporte.





Pois bem, eu precisava “desapegar” do meu longboard, com o coração na mão, mas sem opção. Havia ligado para a companhia aérea para entender como despachar um terceiro item, e me falaram que isso não era possível para voos que seguissem para o Recife, no Brasil. A cidade de São Paulo era a única exceção, onde é possível pagar por excesso de bagagem ou novos itens além das duas malas permitidas. Não era o meu caso. Com destino final "Recife" me informaram a única alternativa, colocar o skate dentro de uma das duas malas que eu já teria o direito despachar. Impossível, ambas completamente lotadas. Tinha que deixar o skate nas terras do Tio Sam.

Poderia ter dado para algum amigo, pra garota que esperava na parada de ônibus comigo todos os dias, toda arrebentada por amar o esporte e viver se arriscando em manobras, mas deixei as coisas acontecerem com a certeza de que me apareceria a pessoa certa.

No meu último dia em LA resolvi ir à Venice, onde toda essa história começou, imaginando que o skate deveria voltar pra lá. Algum sortudo que estivesse de bobeira passeando na praia ia ganhar um bom longboard “Stella”, fabricado em San Diego, também na Califórnia. Fui rever tudo, admirar aquela paisagem tão californiana, palmeiras altas, veleiros no mar, grandes aviões cruzando o céu o tempo todo, uma energia boa, de gente que gosta de viver. Até que me sentei embaixo de uma palmeira, ao lado de uma pista de skate, e fiquei procurando alguém que tivesse um skate velho, quebrado, enfim... Mas na certeza de que me apareceria a pessoa certa, a situação perfeita.


Foi aí que um homem se aproximou de mim:

- Would you like new trucks?

Apesar da palavra “truck” ser até comum para nós brasileiros, ela não me veio à cabeça naquele momento. E, então, perguntei:

- What's truck?

O moço fez cara de espanto, e apontando para uma caixa, soltou novamente só a palavra:

- Trucks.

O significado “caminhão”, enfim, me veio à cabeça. Mas, ele se referia ao eixo onde se colocam as rodas do skate.

- Ah, ok. Thank you, but my skate is new, I don´t need some new trucks now. - Agradeci dizendo que o skate era novo, e que naquele momento eu não estava precisando.

Ele sentou um pouco do lado, e percebi que estava com uma mulher, que entendi ser namorada/esposa. Quando o escutei comentar que o dia não estava pra peixe, ou melhor, para as vendas:

- Today is a bad day, I didn't sell anything.
- Don't worry, good time will come. - A mulher o consolou, dizendo que as coisas iam melhorar.

Foi aí que pensei em dar o skate para ele. Imaginei que seria útil para quem já trabalha com peças de skate. Podia vender e fazer alguma grana. Mas não me precipitei, continuei observando. Foi então que percebi que ambos usavam óculos escuros Ray Ban, E O MAIS GRAVE, ela tinha um iPhone 5s. Nada contra quem trabalha e compra com honestidade seus produtos preferidos. Mas minha gente, o meu iPhone ainda era 3s. (risos) Concluí que alguém que comprou um aparelho eletrônico lançado há menos de um mês no mercado mundial, e que não estava saindo por menos de 2 mil dólares, não estava precisando tanto assim de um skate, né? Vamos para o próximo, que o “Stella” continuava sem novo dono...

Fiquei rindo da minha cara e das conclusões dessa mente que não para de trabalhar e analisar o mundo um segundo sequer, até que um garoto que estava na pista de skate veio em minha direção.

- Nice skateboard! - Falou com um jeito alegre, típico dos elogios americanos.
-Thank you. - Agradeci.

Por um segundo ele ganhou credibilidade em ser o escolhido, ele tinha gostado do meu skate e o dele estava bem acabado. Mas foi só por um segundo mesmo.

Ele continuou:
- Do you have marijuana? Can you give some that?

Sim! Ele perguntou se eu tinha um pouco de maconha pra dar pra ele. O consumo da droga é QUASE normal por lá, pois é liberada, supostamente, para uso medicinal. Apesar da facilidade de se conseguir a droga sem nem precisar ir ao médico. Mas eu fiquei foi pensando como alguém poderia achar que uma criatura com a maior cara de careta feito eu poderia fumar maconha. Mas pensei tudo isso em um segundo só, e respondi, “de boa”:

- I don't have. I don't smoke. - Falei que não tinha, que não fumava.

Ele agradeceu e se virou para pista para acompanhar os colegas. E eu fiquei pensando: “esse danado ia fumar meu skate todinho”. Ainda bem que não dei pra ele, né?



Antes que meu skate virasse cinzas e fumaça, abandonei a missão “Venice” e fui para a vizinha, Santa Monica Beach. E já fui me perguntando “como não pensei nisso antes?”. Certamente, no meu lugar favorito, eu ia achar quem merecesse o presente.

Pois bem, já no Santa Monica Pier, fui me despedindo daquele lugar fantástico, do Bumba Gump, onde foram rodadas cenas de “Forrest Gump”; do Zoltar que fez parte da minha infância com o filme “Quero ser Grande”, rodado antes mesmo de eu nascer; do parque de diversão, dos churros de quase meio metro, e do pôr do sol mais bonito do Pacífico. Sentado, observando o sol se esconder no mar esqueci da missão, até que o sol mergulhou de vez na água. “Hora de levantar acampamento”, pensei.





 
  


Até imaginei que ia voltar pra casa sem doar o skate e passar a tarefa para minha “host”, uma jovem senhora negra, divertida, apaixonada por halloween, pizza e chocolate (“amargo e com amêndoas, por favor” – sempre pedia quando eu ia ao mercado), gente do bem, dona da casa onde morei neste período. Mas foi percorrendo o caminho de volta, ainda no píer, que resolvi descer pela praia e ir até o ponto onde ficam equipamentos de academia, aqueles lugares que assistimos nos filmes, ficam na areia, onde loiras de biquíni circulam de patins, e homens bombados fazem seus treinos (sim, é tudo verdade!). Foi então que o Universo me mostrou quem tinha sido a pessoa escolhida para ganhar o skate.

Tinham dois garotos e uma menina caminhando em minha direção, o mais velho devia ter uns 10 anos, já os mais novos uns 8 anos.

- Good skateboard! - Falou o mais velho.
- Did you like? - Perguntei se ele havia gostado. Ele disse que sim, então, sem perder tempo, sugeri que ele experimentasse, já esticando o braço para ele pegar o skate:
-Try.
- It's ok, I need to go now, my mother is waiting. - Ele respondeu que precisava ir, a mãe já estava esperando. Então, resolvi logo a situação:
- But, did you like?
- Yes, it's amazing.  
- What's your name? - Perguntei.
- James. - Respondeu.

Pensei que ele ia completar com o “Bond. James Bond”, mas não o fez.

- Then, get, James! It's a gift to you. - Falei pra ele levar, que aquele skate era pra ele.

O garoto arregalou os olhos, desconfiado, mas já com a mão no presente. E perguntou:

- Why?

Expliquei toda a história de que estava voltando ao Brasil e não poderia levar. E perguntei se ele queria que eu falasse com a mãe dele, ele respondeu que sim.

Enquanto ele me mostrava onde a mãe estava, os dois menores já corriam na direção dela gritando sem parar: “That man gave a new skateboard to James”. A mãe já olhava desconfiada em minha direção enquanto me dirigia a ela.

Me apresentei, expliquei tudo novamente, e ela logo sorriu, e comemorou de uma maneira que só os americanos fazem, chamam por Deus, o bom "oh my God", falam que não estão acreditando, agradecem, abraçam... (pelo menos é a visão que tive deles, há quem fale que são “frios”. Nem todos.).

Ela me falou que estaria vindo passar carnaval no Rio de Janeiro, agradeceu demais, e pediu para tirar uma foto junto com os filhos dela. Foi divertido.

Após a foto, James lançou o skate dele bem longe, com toda força, estava um pouco quebrado, meio velho. Uma tia dele, que também estava lá, saiu correndo para apanhar e falou algo do tipo “Não faça isso, James”. Mas ele já ia longe, em cima no novo brinquedinho. Passou por mim duas vezes ainda, deslizando sobre o chão, seguido pelos irmãos correndo, uma cena bonita de se ver. Missão cumprida. Time back home.

sábado, 13 de julho de 2013

Prazer em conhecer, Aspirina

Vez por outra a gente escuta, ou mesmo vive, alguma história que envolve o tal do ciúme. As definições para este sentimento passam por inveja, zelo de amor, despeito. Há quem defenda que existe o ciúme saudável, aquele de quem está tendo cuidado com quem ama, e o doentio, quando se começa a querer moldar a vida do outro. Bem, cada um com suas teses. Mas quando o ciúme acaba gerando brigas e desentendimentos é preciso encontrar um jeito de driblar a situação ou, certamente, aquela relação – de amizade ou de amor – estará ameaçada.
 
Pois bem. Dia desses, me deparei com uma “técnica” no mínimo inusitada. Estava fazendo uma reportagem com minha equipe de externa, formada por motorista/auxiliar e cinegrafista. Concluímos as gravações e voltamos para o carro da TV. Ao entrar no banco de trás, vi que o celular do motorista, que ele havia deixado dentro do veículo, estava chamando. Peguei o aparelho e fui levar pra ele, que ainda estava guardando os equipamentos na mala.
 
Olha Jorge, estão te ligando. – olhei indiscretamente o visor e continuei – É a... a... bem, acho que a Amoxilina te ligando. – concluí, tendo a certeza de que os pais não têm mesmo limites ao batizarem seus filhos indefesos.
 
Jorge deu uma risada e atendeu ao telefone. Mas ele não a cumprimentou com o nome do antibiótico. Usou um “Thaís”.
 
Então... Thaís queria marcar para sair com o grupo de estudos do qual eles faziam parte. Combinaram, e encerraram a ligação.
 
– Amoxilina? – perguntei antes que desse tempo dele respirar.
 
Outra risada.
 
– Espera aí que te explico. Primeiro tenho que avisar a Dimeticona e a Aspirina sobre o encontro.
 
– Hein? – Eu sabia que eu estava muito cansado, quase sem saber se aquela manhã era real, ou se eu estava na minha cama, deitado, dormindo, e sonhando tudo aquilo. Mas, ainda que em sonho, queria tirar aquela história “a limpo”.
 
Feitas as ligações para Bianca Dimeticona e Luiza Aspirina, veio a explicação.
 
– Ciúmes, Lael, o problema é ciúmes.
 
Explico. A namorada de Jorge era tão ciumenta, mas tão ciumenta, que ele não podia ter uma amiga mulher sequer. E como algumas discussões começaram com ela pegando o celular dele enquanto estava chamando, ele resolveu fazer a troca dos nomes. Assim, ele teria justificativa de que era um alarme, avisando a hora de tomar o remédio. Olhe mesmo que “presepe”.
 
– Fala sério! Ninguém cai nessa.
 
– Pode crer! Já me livrei de algumas dores de cabeça graças aos meus “remédios”. Garantiu.
 
Fiquei imaginando que o “jeitinho brasileiro” se reinventa a cada dia. Ô povo criativo. Se bem que essa técnica requer todo um estudo para ser aplicada. Afinal, ele precisava decorar quem era quem, pra não chamar de Thaís quando Dimeticona estivesse ligando, ou confundir Aspirina com Bianca.

 
 
Não perguntei qual o critério para batizar as moças. Mas tive a certeza de que se eu fosse fazer isso com os meus contatos, já teriam Diazepan e Benegripe, fácil, fácil. Aliás, Diazepan seria bem concorrido. Talvez criasse o 1, 2, 3, ou fosse diferenciando por letras.
 
Bem, acho que qualquer hora a namorada de Jorge vai suspeitar que ele não está tão doente assim, precisando de tanto remédio. Ou, se ela descobrir, ele vai precisar de remédio de verdade. Certamente, no dia que ele ligar para os amigos precisando de emplastro sabiá e massageol, a gente vai saber que ele não está se referindo à pessoas de verdade, e que a namorada não gostou da técnica dele.
 
Pois é meus amigos, cada um com sua criatividade. Atire a primeira pastilha Valda quem nunca inventou uma dessas né?

P.S: Podiam criar um novo segmento de nomes para o funk, usando os nomes dos remédios. Afinal, quase não existem mais disponíveis no mercado nomes de frutas para as novas funkeiras. Dani Neosaldina, Fabi Dipirona, dançarinas do Mc Tylenol. De repente pega. Vou patentear.

domingo, 7 de abril de 2013

Tem confusão que vem a cavalo

Era início de uma tarde de verão em Buenos Aires, um sol de “queimar o couro”, como diriam meus avós, e eu do lado de fora do Museu Nacional de Belas Artes esperando na fila a minha vez de entrar, junto aos amigos brasileiros que tinha acabado de conhecer no Cemitério da Recoleta (nunca imaginei que faria amizade em cemitérios, essa vida tem de tudo). Não sou o maior apreciador de exposições do tipo, museus não são minha principal programação nas viagens, mas como um bom turista não ia perder a oportunidade de apreciar obras de grandes nomes da arte. Van Gogh, Renoir, Manet, Picasso, o patrimônio do museu é grandioso, considerado o mais importante da Argentina.

Pois bem, entramos e nos dividimos entre os salões. As obras são mesmo de uma beleza incrível, única. Já pensou quantos dias, meses, ou anos, talvez, para se esculpir uma pequena estátua ou pintar uma enorme tela daquelas? Fico imaginando quem seriam aquelas pessoas, se seria prazeroso ou incômodo posar para um artista durante longos períodos, e se eles tinham ideia de que aquela obra iria atravessar séculos para ser vista por "curiosos da vida de antigamente". Aqueles traços, aquelas cores, trazem um pouco de um período e espaço em que não vivemos, e nos dão a chance de sentir um pouco o que era aquele estilo de vida que desconhecemos. Acho isso bem interessante.
Cansado, depois de visitar alguns salões, voltei para o início do prédio. Lá existem grandes bancos encostados na parede, certamente para idosos (como eu) descansarem as pernas um pouco. Me sentei ao lado de uma senhora, devia ter uns 80 anos. Muito bem arrumada, cabelos brancos, curtos e cacheados, óculos, joias, uma bolsa pendurada e uma bengala do lado.
Não há nada pior que esperar. – disse num espanhol bem carregado.
Olhei pro lado, não sabia se ela estava pensando alto, ou queria interação.
Você não acha? – completou.
Sim, ela queria interagir. E eu, enganado, como muitos, achando que espanhol e português são semelhantes, resolvi entrar na conversa.
Claro que sim. Não há nada pior.
Que horas são agora?
Ela falava em espanhol, mas eu entendia que era uma beleza (ou pensava que entendia).
Quatro e quinze (da tarde). – respondi.
Ela fez cara de raiva.

Marquei com uma amiga, já está mais de meia hora atrasada.

Pensei que se a amiga tivesse a mesma idade dela estaria mais que justificado. Não deve ser fácil sair por aí de bengala.

É brasileiro? – perguntou ela, já demonstrando que a conversa agora era comigo até a amiga chegar.

Sim, sou brasileiro.

Vacaciones? – Eis a palavra da discórdia.

Pensei que ela estava perguntando se eu estava na Argentina a trabalho. Vacaciones > Vocação > Profissão > Trabalho. Eu tinha feito a ligação “perfeita” entre as palavras. Só que não.

Não. Não estou a trabalho, estou passeando, de férias.

Veio a caballo?

Não senhora. É isso que estou a lhe explicar. Não vim a trabalho. – ela fingiu entender, eu também.

É muito bonita sua profissão! – exclamou ela com um sorriso no rosto.

Oi? Minha profissão? Eu nem tinha uma carteira de jornalista pendurada no pescoço.
Adoro caballos! Mas você veio de lá para cá a caballo?
Alguma coisa estava saindo errada na conversa.
Eu vim de férias mesmo, não vim a trabalho.
­Hum, que aventura! – disse ela toda empolgada.
Eu daria um beijo em quem me “acudisse” naquela conversa. De qual aventura ela estava falando?

Quantos caballos você tem?

Com essa frase dita, conclui a diferença entre as palavras. E sim, ela estava falando de cavalos.

Eu não tenho cavalos. – respondi, objetivo, pra ver se dava um rumo à conversa.
Mas como não? Você não veio do Brasil a cavalo? É muito corajoso. Parabéns!

Nossa Senhora do Google Tradutor, abençoa.
Não senhora, acho que nos perdemos na conversa. Não vim a cavalo, e nem a trabalho. Estou de férias! Onze meses nós trabalhamos, um mês nós saímos de férias. Consegue compreender?
Não tem nada de caballos então? – Mostrou-se decepcionada após colocar as mãos pra frente e fazer uma espécie de “pocotó, pocotó” para que eu tivesse certeza do que ela falava.
Não senhora, nem unzinho.
Quase não paramos mais de gargalhar. Ela era uma simpatia.

Vacaciones! – Ah, bendita palavra. – É que chamamos de “vacaciones” o que você chama de “férias”.

Entendi. Então, sim! Estou aqui na Argentina por motivos de “vacaciones”.

Continuamos rindo muito até que uma outra senhorinha se aproximou. Era a amiga dela. Tomou bronca, e insistiu logo em ir andar pelo museu.

Um momento. Este é meu amigo do Brasil que estava comigo enquanto você não chegava. Espere que vou me despedir. – Olha que senhorinha mais atenciosa. – Foi um prazer conversar com você, bom passeio... – até aí tudo bem – ...e sua profissão é linda, parabéns!
Hããã? Eu não tinha falado minha profissão em momento algum. Em que será que ela pensou que eu trabalhava depois dessa confusão toda?

Acenei com a cabeça, agradeci o elogio à minha profissão (seja lá qual for que ela tenha imaginado). Ela deu as costas e saiu. Fiquei rindo horas da situação, e nem pude ter raiva de quem “inventou” que vacaciones corresponde a férias. Pois essa confusão me gerou boas risadas. Até hoje fico pensando o quanto é bom essas situações, conversas "descompromissadas", assuntos saudáveis, bobos, às vezes. Num mundo que gira com tanta notícia ruim, em que vivemos sob stress, pressão, números, como é bom parar, dar risada, e sentir um pouco o real motivo de se estar vivo.

domingo, 24 de março de 2013

Toyota: um universo sobre quatro rodas

Quem nunca ouviu um grito “Santa CRUI saindo agora” não sabe o que é um “toyoteiro” desesperado atrás de passageiros. (risos)

Pra você que não entendeu muito bem o que eu escrevi, vou explicar. No interior de Pernambuco, jipes são ampliados em oficinas especializadas numa cidade chamada Brejo da Madre de Deus, aumentando a capacidade de passageiros. Os “toyotas”, como são chamados, se transformam numa opção de transporte entre cidades próximas, e por vezes, até para a capital. Essa modificação no carro é legal, regularizada pelos órgãos responsáveis. Já se existe fiscalização para que utilizem de maneira segura, com capacidade correta, aí é outra história, que não vem à minha reflexão de hoje.
Por ser uma opção mais barata, atrai um público mais humilde. Mas, por vezes, também é a única alternativa, quando não há linhas de ônibus entre as cidades. Algo comum, aliás, já que os “toyotas” dominaram o interior de Pernambuco. Cidades que são polos comerciais, como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru são os principais destinos desses veículos saindo de cidades menores.
 
Geralmente existe um “ponto de Toyota”, mas basta acenar com a mão, ou um bom grito, que ele vai parando em beira de estrada, praça, qualquer lugar. Nos dias de feira de sulanca (feira de confecções) nessas cidades, eles são disputados mais do que coca-cola no deserto. E vão de cidade em cidade lotados, e ainda com os bagageiros (o teto do veículo) abarrotados.
Pois bem, quem precisa utilizá-los diariamente talvez ache um saco, desconfortáveis, inseguros, uma chatice. Já no meu caso, que viajei poucas vezes, achava o máximo. Eram sempre ambientes de muita gente interessante e que eu adorava ouvir, observar e por vezes, entrar naquele mundo. Era divertido.

Aquelas pessoas entendem umas às outras, falam a mesma língua, sabem os sacrifícios que passam para comercializar seus produtos, ou para enfrentar feiras em busca de mercadorias. E por se entenderem tão bem, existe uma espécie de “ética do Toyota” que expõe qualidades do ser humano, e conceitos do que seria uma sociedade justa e harmoniosa. Vou exemplificar.
É quase certa a atitude de um homem, ou mulher mais jovem, em ceder a vaga na parte da frente do veículo para uma senhora de idade, uma mulher grávida, alguém que tenha alguma dificuldade de subir na parte de trás, onde as pessoas vão sentadas de lado, e com mercadorias pelos pés. Nem é lei, como vaga de idosos num estacionamento, por exemplo. É gentileza mesmo. Ensinamento que vem “de berço”, e bem a cara de quem nasceu e cresceu no interior, criado respeitando o que diziam os pais. Isso é bem bacana.


Outra coisa interessante é que existe uma cumplicidade momentânea. As pessoas conversam assuntos sérios com desconhecidos que acabaram de se tornar bons amigos, e continuarão assim até os próximos vinte minutos, quando um deles chegar ao seu destino final, e então voltarão a ser apenas desconhecidos. Os assuntos podem ir de como lidar com a vizinha fofoqueira, como ajudar a filha no casamento em que o marido vive bêbado, ou como dar jeito no filho que não quer estudar. Vale conversar sobre tudo. Eles compartilham experiências, parecem querer ajudar uns aos outros, e citam exemplos de dentro de casa, com a história igualzinha a que estão ouvindo. Eles vivem no mesmo universo. Ah, e jamais se finaliza uma conversa dessas sem um “vai com Deus”, “Deus tome conta”, “boa sorte”.
Ainda falando em cumplicidade, outro exemplo. Se a pessoa que está do seu lado tirar um lanche da bolsa, ela vai te oferecer. Já comi muita pipoca “karintó” e biscoito “treloso” nessas minhas viagens de toyota. (risos) Mas já segurei criança toda “borrada” pra ajudar a trocar a fralda do menino também. Não se nega ajuda né? E naqueles minutos quando somos bons amigos, aí sim, não se nega ajuda aos amigos de jeito nenhum.
Algumas conversas surreais também podem ser ouvidas. Certa vez eu fui muito atento à conversa de dois homens sobre o mercado cinematográfico. Pois é! Quem disse que não rola papo “cult” nos toyotas da vida? Um deles falou assim: “não é pra qualquer um conseguir fazer uma bomba com um palito de fósforo e um clip, por isso que esse Van Damme é contratado pra fazer esses filmes”. Juro! Eu ouvi isso. E pensam que era de brincadeira? Não mesmo. A conversa seguiu com elogios ao talento do Van Damme, que também abria portas só com um clip, e por isso contratavam ele para os filmes. Outro assunto, também certo nas conversas, são as músicas das bandas momentâneas, além da novela das nove.
O motorista é sempre a figura que quer lotar o carro, assim terá mais lucro. Por isso, é sempre certo que você ouvirá tais frases dos passageiros: “cabe mais não, motô”, “se for botar mais gente eu desço”, “nem no pneu cabe mais gente”...
Mas o motorista não é um vilão não. Quem pega o toyota na beira da estrada só pra andar uns poucos quilômetros, às vezes nem paga a corrida, dá um grito “fica pra próxima, Deus abençoe”, ou coloca umas moedas na mão do motorista, que não são nem conferidas. E ninguém fica com raiva por isso. É assim mesmo que funciona.
E todas essas pessoas adoram dar risadas juntas, ou dividir o mesmo lamento, a mesma angústia. São brasileiros, são seres humanos, tentando ser felizes, como qualquer um de nós. E “fazendo das tripas, coração” vão sendo mais felizes do que muita gente que se acha mais do que eles, financeira e intelectualmente falando. Esses passageiros e o universo em que eles vivem me serviram para ter a certeza de que existem milhares de mundos dentro desse mesmo mundo. E são mundos interessantes demais, muitas vezes diferentes de tudo o que podemos imaginar, e mesmo tão próximos de nós nem conseguimos enxergar que eles existem, o que é uma pena. Essa diversidade é algo bastante interessante da raça humana, é a possibilidade de viver várias vidas numa mesma vida.

sábado, 23 de março de 2013

O fantástico mundo da criança

Quando a gente dá uma pausa na correria do dia-a-dia, é inevitável ficar refletindo sobre a vida, presente, passada, ou o que planejamos para os próximos passos, sejam pessoais ou profissionais.
 
Pois bem, em um desses momentos, recentemente, me lembrei do dia em que meu pai chegou em casa com uma impressora, e na imagem ilustrativa da caixa tinha uma flor sendo impressa. Lembro bem que era vermelha, lembro exatamente da figura. Quando vi essa caixa, imaginei que qualquer coisa que eu quisesse sairia daquela máquina. Eu não sabia que era uma impressão no papel, pensava que as coisas saíam de dentro da impressora. Achei aquilo fantástico. Imagine só, eu tinha na minha casa uma "máquina de fazer tudo", chego a lembrar do sentimento que tive com aquela constatação, chego a sentir um pouco, novamente, o que senti naquele dia.
 
 
 
A mente de uma criança é algo puro, sem as malícias desse mundo adulto. Não deveríamos perder completamente essa inocência com o passar dos anos. A vida seria mais leve e divertida. E que bom teria sido se eu não tivesse descoberto tão rápido que daquela máquina não sairia tudo que eu queria. (risos) Poderia ter curtido um pouco mais aquele sentimento.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O "sabor" da merenda latina

Era fim de tarde, eu acabava de embarcar no “BuqueBus” em Colonia del Sacramento, no Uruguai, para retornar a Buenos Aires, na Argentina, onde estava de férias. “BuqueBus” é, na verdade, o nome da empresa de barcos que faz vários trechos entre Argentina e Uruguai, mas percebi que as pessoas chamavam a embarcação por este nome, ainda que fosse de outra empresa, como nosso “Leite Moça” ou “Bombril” (comparação tosca, mas deu pra entender, né?), por ser a “BuqueBus” a maior delas.

Tinha passado um dia incrível em Colonia. É sem dúvida um dos lugares mais lindos que já fui, e tem uma energia diferente, positiva. Não há palavras que expliquem o que se sente andando pelo centro histórico, aquelas casas antigas, as ruas de paralelepípedo, as cantinas com cheiro bom de comida sendo feita, o farol, e o Rio da Prata banhando toda extensão. Parece que estamos numa cidade cenográfica de novela, onde a vida é tranquila e feliz. Minha vontade era sentar numa calçada daquelas e esperar a vida passar. Só indo lá pra me entender, é preciso mais que definições, é preciso sentir.






Pois bem. Ao embarcar, subi as escadas para procurar um assento. Os barcos são grandes, têm dois andares. Há lanchonetes, café, e free shop a bordo. Não tenho ideia da capacidade, mas, certamente, bem mais que um avião que faça viagens domésticas, mais de 200 pessoas. Achei uma fileira vazia e preferi sentar ali, assim ficaria na janela, e faria a viagem olhando para a imensidão do rio. Apoiei minha mochila no canto e o barco começou a se mover.
 
Logo apareceram duas pessoas, uma mulher e um menino. “Los asientos están ocupados?”, perguntou a mulher. Respondi que não, e eles sentaram. Eram duas figuras incríveis, saídas de algum filme, ou de algum século distante. Aparentavam não ter muitos recursos, e certamente não estavam utilizando o “BuqueBus” a passeio, como eu, mas como um transporte necessário.
A mulher era branca e alta, bem magra, vestia uma roupa florida e um suéter azul escuro de lã. Na cabeça um lenço amarrado parecia esconder o pouco trato com os cabelos, curtos e cacheados. O menino se chamava Tomaz, e devia ter uns sete anos de idade. Ele era bem branco, magrinho, tinha orelhas de abano, vestia um pijama, e seus óculos “fundos de garrafa” eram como de mergulho, um elástico prendia à cabeça.
Tomaz queria ver o rio de todo jeito e quase passou por cima de mim, com aquela naturalidade de criança, quando a mulher, que aí entendi que era sua mãe, o puxou de volta. Ela falou algo como “não há lugar para todos, assim é a vida”. “Por favor, mamá”, insistiu o garoto, mas não houve acordo.  Eu disse que não tinha problema que ele se encostasse na janela, mas ela disse que não, de maneira educada. A forma como ela transmitia noções de educação e afeto passou me chamar atenção.
O menino era uma espoleta, não parava quieto, como uma criança normal na idade dele. Queria vestir os coletes salva-vidas que ele "descobriu" embaixo das poltronas. Então, acho que na tentavida de distraí-lo, a mãe disse que havia comprado uma “merenda” para eles. Tomaz comemorou com aplausos e gritos. A cena que seguiu me chamou muita atenção. Ela preparou todo aquele momento, toda aquela “ceia”. Abriu a bandeja da poltrona da frente explicando que ali colocaria a “merenda”, pois havia sido feita para isto. Tirou da bolsa uma garrafa de alumínio, como essas que usamos na academia. A garrafa estava meio desbotada, meio velha.
Em seguida, pegou um copinho de plástico dizendo que estava com sede, e listando as qualidades da água, “gelada”, “fresquinha”, que fazia muito bem bebê-la. O menino observava, mas sem parar um minuto de fazer perguntas sobre tudo aquilo – "quem inventou essas bandejas? onde conseguiu a água?"... – e mostrava entusiasmo com aquele momento. Até que ela tirou da bolsa o lanche deles. Era um pedacinho quadrado de doce, uma mariola dessas que conhecemos, bem pequena. Embrulhada num plástico transparente e com a etiqueta do preço: “$2”. Havia custado dois pesos, não sei se uruguaios ou argentinos, mas algo que corresponde a centavos do nosso Real. Tomaz perguntou onde ela havia conseguido dinheiro para comprar, ela disse que tinha algum sobrando. Eles dividiram aquela única mariola como se fosse um grande banquete, “es una delicia”, “humm”. E o garoto oferecia para mãe, mandava que ela desse mais uma mordida, e intercalavam com pequenos goles de água. Isso durou alguns minutos. Só eu sei como achei aquela cena fantástica. ERA SÓ UMA MARIOLA, E ÁGUA DE UMA GARRAFA ENFERRUJADA. Pelo menos era o que eu pensaria, até aquele dia. Pois não, não era só isso, eram dois seres humanos que dividiam um belo sentimento entre si. Um amor verdadeiro de quem cuida do outro, e que estavam transformando alguns minutos da vida deles num momento especial e feliz.
Como reação natural de uma criança, Tomaz pediu outra, e a mãe explicou que não tinha. Ele lamentou, mas entendeu, e ajudou a arrumar a “bagunça”. Guardaram tudo e fecharam a bandeja. Sempre se beijavam e se abraçavam. Minha cabeça “processava” tantos pensamentos que não tive reação de conversar com eles para saber mais sobre o que estavam indo fazer em Buenos Aires, em que trabalhava a mulher, onde estava o pai do menino, enfim, eu só observava.
A mãe tirou da bolsa um netbook, também meio velho, e deu para Tomaz brincar. Eles fez riscos aleatórios no “paint” sob supervisão e elogios da mãe. Dizia que estava lindo, que ele seria um grande artista, bastava se aperfeiçoar. Ela cuidava dele como se fosse o que tinha de mais valioso.
Então, ela me disse que iria dar uma volta no barco e perguntou se eu poderia guardar os assentos. Eu disse que sim, e eles saíram. Não voltaram mais.
Quando vi pela janela Buenos Aires se aproximando também me levantei e fui ao free shop comprar umas bobagens. O barco atracou, e todas aquelas centenas de pessoas se voltaram para saída. Ainda os vi esperando a fila andar na hora do desembarque. Mas não consegui mais me aproximar. Queria ter conversado, queria ter ajudado de alguma forma. Mas durante o momento que estive próximo, eu não consegui reagir, me pergunto o motivo até hoje, mas acho mesmo que foi porque meus pensamentos estavam em alta velocidade. Quem me dera ter um pacote de mariolas, e saber que aquela cena que presenciei se repetiria no futuro por mais dez ou quinze vezes.
 
Tomaz e sua mãe me fizeram valorizar mais momentos com as pessoas que amo, e me fizeram aprimorar conceitos sobre o “valor” de bens materiais. Fiquei imaginando como o "almoço em família" saiu de moda nesse mundo contemporâneo onde não temos mais tempo pra nada, e como isso pode interferir de maneira geral nas relações entre as famílias. Aquela merenda tão simples, ganhou um "sabor" que deveríamos ter em tudo que fazemos.
Tomara que eles sigam felizes como me transpareceram ser. Torço por isso.