quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O "sabor" da merenda latina

Era fim de tarde, eu acabava de embarcar no “BuqueBus” em Colonia del Sacramento, no Uruguai, para retornar a Buenos Aires, na Argentina, onde estava de férias. “BuqueBus” é, na verdade, o nome da empresa de barcos que faz vários trechos entre Argentina e Uruguai, mas percebi que as pessoas chamavam a embarcação por este nome, ainda que fosse de outra empresa, como nosso “Leite Moça” ou “Bombril” (comparação tosca, mas deu pra entender, né?), por ser a “BuqueBus” a maior delas.

Tinha passado um dia incrível em Colonia. É sem dúvida um dos lugares mais lindos que já fui, e tem uma energia diferente, positiva. Não há palavras que expliquem o que se sente andando pelo centro histórico, aquelas casas antigas, as ruas de paralelepípedo, as cantinas com cheiro bom de comida sendo feita, o farol, e o Rio da Prata banhando toda extensão. Parece que estamos numa cidade cenográfica de novela, onde a vida é tranquila e feliz. Minha vontade era sentar numa calçada daquelas e esperar a vida passar. Só indo lá pra me entender, é preciso mais que definições, é preciso sentir.






Pois bem. Ao embarcar, subi as escadas para procurar um assento. Os barcos são grandes, têm dois andares. Há lanchonetes, café, e free shop a bordo. Não tenho ideia da capacidade, mas, certamente, bem mais que um avião que faça viagens domésticas, mais de 200 pessoas. Achei uma fileira vazia e preferi sentar ali, assim ficaria na janela, e faria a viagem olhando para a imensidão do rio. Apoiei minha mochila no canto e o barco começou a se mover.
 
Logo apareceram duas pessoas, uma mulher e um menino. “Los asientos están ocupados?”, perguntou a mulher. Respondi que não, e eles sentaram. Eram duas figuras incríveis, saídas de algum filme, ou de algum século distante. Aparentavam não ter muitos recursos, e certamente não estavam utilizando o “BuqueBus” a passeio, como eu, mas como um transporte necessário.
A mulher era branca e alta, bem magra, vestia uma roupa florida e um suéter azul escuro de lã. Na cabeça um lenço amarrado parecia esconder o pouco trato com os cabelos, curtos e cacheados. O menino se chamava Tomaz, e devia ter uns sete anos de idade. Ele era bem branco, magrinho, tinha orelhas de abano, vestia um pijama, e seus óculos “fundos de garrafa” eram como de mergulho, um elástico prendia à cabeça.
Tomaz queria ver o rio de todo jeito e quase passou por cima de mim, com aquela naturalidade de criança, quando a mulher, que aí entendi que era sua mãe, o puxou de volta. Ela falou algo como “não há lugar para todos, assim é a vida”. “Por favor, mamá”, insistiu o garoto, mas não houve acordo.  Eu disse que não tinha problema que ele se encostasse na janela, mas ela disse que não, de maneira educada. A forma como ela transmitia noções de educação e afeto passou me chamar atenção.
O menino era uma espoleta, não parava quieto, como uma criança normal na idade dele. Queria vestir os coletes salva-vidas que ele "descobriu" embaixo das poltronas. Então, acho que na tentavida de distraí-lo, a mãe disse que havia comprado uma “merenda” para eles. Tomaz comemorou com aplausos e gritos. A cena que seguiu me chamou muita atenção. Ela preparou todo aquele momento, toda aquela “ceia”. Abriu a bandeja da poltrona da frente explicando que ali colocaria a “merenda”, pois havia sido feita para isto. Tirou da bolsa uma garrafa de alumínio, como essas que usamos na academia. A garrafa estava meio desbotada, meio velha.
Em seguida, pegou um copinho de plástico dizendo que estava com sede, e listando as qualidades da água, “gelada”, “fresquinha”, que fazia muito bem bebê-la. O menino observava, mas sem parar um minuto de fazer perguntas sobre tudo aquilo – "quem inventou essas bandejas? onde conseguiu a água?"... – e mostrava entusiasmo com aquele momento. Até que ela tirou da bolsa o lanche deles. Era um pedacinho quadrado de doce, uma mariola dessas que conhecemos, bem pequena. Embrulhada num plástico transparente e com a etiqueta do preço: “$2”. Havia custado dois pesos, não sei se uruguaios ou argentinos, mas algo que corresponde a centavos do nosso Real. Tomaz perguntou onde ela havia conseguido dinheiro para comprar, ela disse que tinha algum sobrando. Eles dividiram aquela única mariola como se fosse um grande banquete, “es una delicia”, “humm”. E o garoto oferecia para mãe, mandava que ela desse mais uma mordida, e intercalavam com pequenos goles de água. Isso durou alguns minutos. Só eu sei como achei aquela cena fantástica. ERA SÓ UMA MARIOLA, E ÁGUA DE UMA GARRAFA ENFERRUJADA. Pelo menos era o que eu pensaria, até aquele dia. Pois não, não era só isso, eram dois seres humanos que dividiam um belo sentimento entre si. Um amor verdadeiro de quem cuida do outro, e que estavam transformando alguns minutos da vida deles num momento especial e feliz.
Como reação natural de uma criança, Tomaz pediu outra, e a mãe explicou que não tinha. Ele lamentou, mas entendeu, e ajudou a arrumar a “bagunça”. Guardaram tudo e fecharam a bandeja. Sempre se beijavam e se abraçavam. Minha cabeça “processava” tantos pensamentos que não tive reação de conversar com eles para saber mais sobre o que estavam indo fazer em Buenos Aires, em que trabalhava a mulher, onde estava o pai do menino, enfim, eu só observava.
A mãe tirou da bolsa um netbook, também meio velho, e deu para Tomaz brincar. Eles fez riscos aleatórios no “paint” sob supervisão e elogios da mãe. Dizia que estava lindo, que ele seria um grande artista, bastava se aperfeiçoar. Ela cuidava dele como se fosse o que tinha de mais valioso.
Então, ela me disse que iria dar uma volta no barco e perguntou se eu poderia guardar os assentos. Eu disse que sim, e eles saíram. Não voltaram mais.
Quando vi pela janela Buenos Aires se aproximando também me levantei e fui ao free shop comprar umas bobagens. O barco atracou, e todas aquelas centenas de pessoas se voltaram para saída. Ainda os vi esperando a fila andar na hora do desembarque. Mas não consegui mais me aproximar. Queria ter conversado, queria ter ajudado de alguma forma. Mas durante o momento que estive próximo, eu não consegui reagir, me pergunto o motivo até hoje, mas acho mesmo que foi porque meus pensamentos estavam em alta velocidade. Quem me dera ter um pacote de mariolas, e saber que aquela cena que presenciei se repetiria no futuro por mais dez ou quinze vezes.
 
Tomaz e sua mãe me fizeram valorizar mais momentos com as pessoas que amo, e me fizeram aprimorar conceitos sobre o “valor” de bens materiais. Fiquei imaginando como o "almoço em família" saiu de moda nesse mundo contemporâneo onde não temos mais tempo pra nada, e como isso pode interferir de maneira geral nas relações entre as famílias. Aquela merenda tão simples, ganhou um "sabor" que deveríamos ter em tudo que fazemos.
Tomara que eles sigam felizes como me transpareceram ser. Torço por isso.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Fui no paraíso e voltei, mais sábio

Era uma bela manhã de domingo em Fernando de Noronha – PE, e chegava a hora de me despedir daquele paraíso. Havia passado toda semana realizando um trabalho para TV Golfinho, a emissora que produz um jornal local exibido apenas no arquipélago. O voo de volta para Recife era às 11h, então deixei o hotel às 9h e me dirigi ao aeroporto. É um pequeno terminal com dois guichês das companhias aéreas que operam o destino, duas lojinhas com artesanatos e outras lembranças da ilha, e uma lanchonete.

Chegando lá fui direto fazer o check-in e despachar minha bagagem, tudo normal, procedimentos que fazemos em qualquer aeroporto do mundo. Feito isso, resolvi esperar do lado de fora do terminal. O ar condicionado estava quebrado e lá fora estava mais ventilado, além disso, ficaria observando um pouco mais aquele lugar. Me sentei na rampa de acesso à porta onde também estavam encostados dois moradores da ilha. Na verdade eles eram taxistas, tinham “buggues” que atendiam a demanda no horário dos voos. Fiquei observando e ouvindo a conversa deles, até um momento que me surpreendi.
-Será que o “bichão” vem hoje?
-Nem sei, esses dias teve problema no pouso, tem muita garça na pista. Eu tenho pra mim que ele não vem não.

-Também acho que hoje ele não vem.
Claro que entendi, na hora, que falavam do avião. O bendito avião que eu estava ali esperando e que me levaria de volta ao continente. Aquilo me soou como algo do tipo: “será que aquele pássaro de ferro que às vezes aparece por aqui vai dar o ar da graça hoje?”.
Achei tão absurda aquela conversa, pensei: “Como assim, ‘será que vem’? Não é assim que funciona. Claro que vem!”. Estou num mundo moderno, civilizado, onde compramos passagens aéreas com simples toques na tela do celular. Existem órgãos que fiscalizam e regulamentam os serviços que usamos, enfim... Achei meio engraçado também, e fiquei pensando de onde que eles tiravam aquelas previsões, aquelas ideias.
Aí, eu pergunto a você que está lendo essa história. Você acha que o avião foi?
 
Pois é! NÃO foi!
Aquilo foi uma tapa na minha cara. Uma lição de como podemos enxergar de maneiras diferentes a mesma situação. E o fato pode ter várias explicações.
Pra mim, no meu “mundo civilizado” houve uma resposta “civilizada”. A comissária de terra da companhia disse que uma aeronave que faria o trecho Recife – Florianópolis havia apresentado problemas, e foi substituída pela que iria para Noronha. Havia sido uma forma de atingir o menor número de passageiros, já que mais de cem pessoas no Recife esperavam a viagem para Floripa, e talvez nem vinte estivessem indo ou voltando para o arquipélago. Essa foi a versão oficial.
Há uma outra. Também da minha cabeça, de quem já presenciou todo tipo de malandragem, ou “jeitinhos brasileiros”. Pra mim, não tinha aeronave quebrada coisa nenhuma. O fato de ter menos de vinte passageiros teria feito a “espertinha” companhia aérea cancelar o voo. Sem dúvida sairia bem mais barato pagar um almoço para aqueles passageiros e os colocar no voo da tarde, do que deslocar uma aeronave com capacidade para quase duzentas pessoas quando a lotação cabia numa van.
E a previsão daqueles taxistas, como explicar? Eles estavam certos, disso eu não tinha dúvida, da maneira deles de interpretação eles acertaram na mosca. Aí, eu aqui no meu “mundo moderno”, posso pensar que aquela situação era algo comum e que eles simplesmente observaram a quantidade de pessoas e deduziram que a companhia cancelaria o voo. Mas será que foi isso? Será que eles tiveram essa dedução consciente, calculada? Talvez sim, talvez não. Talvez eles não tenham certeza do motivo, apenas “sentem” o ambiente, o dia. Como os “descobridores de chuva” que temos nos nossos sertões Brasil a fora. Quem sabe?
 
Aquilo também me fez pensar como tantas outras coisas podem ser vistas de maneiras diferentes por culturas diferentes, mesmo sendo iguais. Quantos povos cultuaram a lua cheia como uma deusa, capaz de curar, de abençoar, de trazer coisas boas. E fizeram rituais para ela, com fogo, com flores, enfim... No nosso “mundo moderno”, na maioria das crenças, a lua não tem esse poder não. É bela, mas não tem poderes.
Mas quem nunca se pegou olhando pra lua cheia, fotografando, indo observá-la na beira do mar. E aquele momento lhe trouxe paz, lhe fez refletir sobre assuntos que estavam na sua cabeça, e que você buscava soluções? Acabamos fazendo uma oração ali, cada um pro seu Deus, pra sua Nossa Senhora “preferida”, pra algum ser que acreditamos estar acima de nós. E então? Essa danada dessa lua tem poder mesmo, né? Seja qual for sua crença. É só questão de interpretação. E se soubéssemos respeitar as interpretações dos outros não estaríamos neste mundo onde matamos uns aos outros.
Bem, Noronha me deu várias lições de vida. É um planeta onde moram cerca de três mil pessoas. Fica fácil d’agente observar as relações humanas quando o planeta é pequeno. Então, depois posto outras histórias de lá. Minhas análises sobre aquele pequeno planeta e a convivência entre seus seres.
Ah, eu tive que esperar mesmo o avião da tarde. Nem demorou! Voltei pra Vila dos Remédios, o centro da ilha, almocei, espiei a internet, e logo deu a hora de voltar ao continente.
 
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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quando nem a esperança resiste

Parecia um dia comum de trabalho. Eu estava repórter da afiliada ao SBT em João Pessoa – PB. Pautas de comunidade, o velho “esgoto estourado” onde a população pedia solução para o problema, pautas governamentais, e o fim do expediente quase chegando. Nossa equipe – cinegrafista, motorista/assistente e eu – voltava para a sede da emissora quando meu celular tocou. No visor vi que era a editora-chefe, pensei logo “vem bomba por aí, vou ter que esticar o expediente”. Que repórter não pensaria isso (risos).

-Oi. (com tom de desconfiado).
-Preciso que você faça uma história. Desde cedo recebo ligações de uma mulher chamada Lourdes. Ela tenta atendimento desde a madrugada nos hospitais de João Pessoa, já foi em todos e ninguém atende. Anote o celular dela.
Eu queria mesmo largar, estava cansado e sou de carne e osso, mas essa “esticadinha” por uma boa causa era mais confortante. Acho que todo jornalista se enche de felicidade quando percebe que ajuda alguém com seu trabalho. Bem, eu telefonei.
-Alô? Dona Lourdes, por favor.
Uma voz fraca atendeu do outro lado. Expliquei que era repórter e que minha chefe havia mandando que eu fosse acompanhar a história dela de perto. Anotei o endereço e nos dirigimos ao hospital, o segundo maior da capital.
Ao chegar lá vi que havia um Gol branco (daqueles quadrados, antigos) estacionado na porta da recepção, aquela área coberta onde as ambulâncias param. Um senhor no banco do motorista, uma senhora no banco do passageiro que estava deitado, e uma mulher mais jovem do lado de fora do carro segurando a mão dessa senhora.
Falei pra moça: - Sou da TV, dona Lourdes é esta senhora?
Era ela sim. E neste momento ela “apagou”, como alguém que guardou até o último estímulo de energia para saber que estaria “protegida” com a chegada da imprensa. Começava ali uma das cenas mais tristes que já presenciei na vida.
A mulher mais jovem era filha e o senhor no banco do motorista era marido de dona Lourdes. Também havia uma criança, um menino de uns nove anos, neto dela. Eram quase cinco horas da tarde. Eles haviam saído às quatro da manhã de casa, peregrinado por todos os hospitais da cidade, que diziam não poder atender por falta de vaga ou por não ser prioridade. Era a segunda vez que estavam naquele hospital, no mesmo dia. Dona Lourdes tinha algo mais avançado que hérnia de disco, já não andava mais, sentia dores muito fortes e aguardava há meses uma cirurgia pelo SUS.
A filha passou a gritar desesperada que a mãe estava morrendo, e que não podia aceitar que a falta de uma maca impedisse que ela fosse atendida. Havia sido essa a justificativa do hospital em não ter retirado ela do carro em momento algum. Mas foi após, ou por causa, da chegada da nossa equipe que uma maca e dois enfermeiros apareceram. Em meio ao desespero da família, dona Lourdes foi, enfim, colocada pra dentro do hospital. A filha entrou junto.
Tentei conversar com o marido dela, mas ele quase não conseguia falar, olhava pra baixo, não conseguia sequer olhar no meu olho. Entendi o problema da doença, o trajeto que fizeram e o que escutaram em cada hospital. E eu precisava gravar. Não estava ali como cidadão comum (apesar de também estar), mas tinha um trabalho a ser feito, e o cinegrafista estava registrando tudo o que acontecia. Nessas horas sempre nos perguntamos se estamos fazendo a coisa certa, ou se estamos explorando a dor dos outros. Não sei onde fica a linha entre o “sim” e o “não” em avançar, é algo que depende do que estamos sentindo. Mas fui. Liguei o microfone e me aproximei, tentei tirar mais algumas palavras daquele senhor. Só saia uma palavra de cada vez. Eu tentava entendê-lo, e esperava que ele também entendesse minha insistência.
Poucos minutos depois a filha apareceu saindo na recepção. Veio em linha reta, em direção à câmera, parecia destinada a falar, como se aquela decisão de falar fosse a maior certeza que ela tinha em toda vida. Dona Lourdes havia sofrido uma parada cardiorrespiratória naquele momento em que soube da presença da nossa equipe.
Essa moça chorava muito, mas também tinha raiva na voz. Ela gritava como quem mandava um recado para o mundo inteiro ouvir, para todos os seres que dividem esse planeta com ela.
- Minha mãe está lá dentro, toda cheia de fios, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela está morrendo por que eu não posso pagar um plano de saúde pra ela. Eu não tenho vergonha de dizer isso não, aqui na televisão pra todo mundo ficar sabendo. Eu não posso pagar. Se você é rico e pode, agradeça, se eu pudesse minha mãe não estaria morrendo agora...”
Eu não consegui dar uma palavra sequer. Não foi necessário fazer nenhuma pergunta, e eu nem conseguiria mais, chorava tanto quanto ela, mesmo a dor não sendo minha. Mas de alguma maneira também era. Ela falou muito, foram uns três minutos e meio. Falou de dor, de sofrimento, de injustiça, de corrupção. Tinha um pouco de tudo naquele desabafo. Eu olhava pra ela, e também observava o pai do lado. Ele estava encostado na porta do carro aberta, olhava para o chão, e segurava a mão do neto. Nunca esquecerei a expressão do rosto dele, de alguém que se sentia impotente, derrotado, sem esperanças. Alguém que deve ter trabalhado duro uma vida inteira e talvez até se culpasse por aquele momento, por achar que poderia ter feito mais, ter feito melhor, e ter dado outra realidade de vida a quem amava. Ele conseguia me passar todas essas informações, apenas com o silêncio, e a expressão de seu rosto.
A filha de dona Lourdes continuava o desabafo. Ela falou por muitos, ela clamou por milhões de outras pessoas que dependem do SUS no nosso país. Ela só queria que as coisas funcionassem como deveriam ser. Quando ela parou de falar, baixei o microfone, segurei no braço dela e disse que a mãe ficaria boa, foi o máximo que consegui. Dei meia-volta e entrei no carro da TV. Voltei arrasado pra emissora. Tentei fazer o texto o mais rápido possível, não tinha cabeça para “caprichar”, apesar de a situação merecer. Mas tinha consciência de que aquelas imagens e aquele depoimento valeriam muito mais que qualquer texto. Falei ao editor do jornal que assistisse todo depoimento, que era importante, e ao produtor que monitorasse os boletins do hospital para acompanhar o caso. Fiz meu trabalho. E fugi daquela história.
Eu não soube mais de nada, até hoje. Não acompanhei, não perguntei na redação o que havia acontecido. Não sei se voltaram ao caso e outras equipes foram reportar a continuação dessa história. Fugi mesmo. Aquilo me doeu demais, saber que era verdade, com pessoas de verdade me doeu. Por vezes tenho a reação de fugir da realidade, quando essa vida real é cruel, violenta ou triste. Não acho que seja o melhor a fazer, mas às vezes faço. Sou humano.
Mas esse dia me ensinou muito. Não sei se minhas palavras conseguem passar o que senti, que foi mínimo diante da dor que devia estar sentindo aquela família. Mas vale a reflexão de que precisamos estar atentos à vida. Isso inclui nossas relações uns com os outros, nossa com o mundo, e atenção aos que nos governam. São eles que distribuem o dinheiro que pagamos em impostos e que podem evitar o sofrimento de famílias como a de dona Lourdes. Pessoas que podem salvar vidas, ou acabar com elas. Tantos milhões de pessoas tentando a felicidade, quantos milhões de obstáculos para que elas consigam. Tomara que dona Lourdes tenha melhorado, conseguido a cirurgia, quem sabe até montaram um negócio, um comércio, e estão bem melhores financeiramente. Eu preferi dar esse final a história.