Tinha passado um dia incrível em Colonia. É sem dúvida um dos lugares mais lindos que já fui, e tem uma energia diferente, positiva. Não há palavras que expliquem o que se sente andando pelo centro histórico, aquelas casas antigas, as ruas de paralelepípedo, as cantinas com cheiro bom de comida sendo feita, o farol, e o Rio da Prata banhando toda extensão. Parece que estamos numa cidade cenográfica de novela, onde a vida é tranquila e feliz. Minha vontade era sentar numa calçada daquelas e esperar a vida passar. Só indo lá pra me entender, é preciso mais que definições, é preciso sentir.
Pois bem. Ao embarcar, subi as
escadas para procurar um assento. Os barcos são grandes, têm dois andares. Há
lanchonetes, café, e free shop a bordo. Não tenho ideia da capacidade, mas,
certamente, bem mais que um avião que faça viagens domésticas, mais de 200
pessoas. Achei uma fileira vazia e preferi sentar ali, assim ficaria na janela,
e faria a viagem olhando para a imensidão do rio. Apoiei minha mochila no canto
e o barco começou a se mover.
Logo apareceram duas pessoas, uma
mulher e um menino. “Los
asientos están ocupados?”, perguntou a mulher. Respondi que
não, e eles sentaram. Eram duas figuras incríveis, saídas de algum filme, ou de
algum século distante. Aparentavam não ter muitos recursos, e certamente não
estavam utilizando o “BuqueBus” a passeio, como eu, mas como um transporte
necessário.
A mulher era branca e alta, bem magra, vestia
uma roupa florida e um suéter azul escuro de lã. Na cabeça um lenço amarrado parecia
esconder o pouco trato com os cabelos, curtos e cacheados. O menino se chamava
Tomaz, e devia ter uns sete anos de idade. Ele era bem branco, magrinho, tinha
orelhas de abano, vestia um pijama, e seus óculos “fundos de garrafa” eram como
de mergulho, um elástico prendia à cabeça.
Tomaz queria ver o rio de todo jeito e quase
passou por cima de mim, com aquela naturalidade de criança, quando a mulher,
que aí entendi que era sua mãe, o puxou de volta. Ela falou algo como “não há
lugar para todos, assim é a vida”. “Por favor, mamá”, insistiu o garoto, mas
não houve acordo. Eu disse que não tinha
problema que ele se encostasse na janela, mas ela disse que não, de maneira
educada. A forma como ela transmitia noções de educação e afeto passou me
chamar atenção.
O menino era uma espoleta, não parava quieto,
como uma criança normal na idade dele. Queria vestir os coletes salva-vidas que ele "descobriu" embaixo das poltronas. Então, acho que na tentavida de distraí-lo, a mãe disse que havia comprado
uma “merenda” para eles. Tomaz comemorou com aplausos e gritos. A cena que
seguiu me chamou muita atenção. Ela preparou todo aquele momento, toda aquela “ceia”.
Abriu a bandeja da poltrona da frente explicando que ali colocaria a “merenda”,
pois havia sido feita para isto. Tirou da bolsa uma garrafa de alumínio, como essas
que usamos na academia. A garrafa estava meio desbotada, meio velha.
Em
seguida, pegou um copinho de plástico dizendo que estava com sede, e listando
as qualidades da água, “gelada”, “fresquinha”, que fazia muito bem bebê-la. O
menino observava, mas sem parar um minuto de fazer perguntas sobre tudo aquilo –
"quem inventou essas bandejas? onde conseguiu a água?"... – e mostrava entusiasmo
com aquele momento. Até que ela tirou da bolsa o lanche deles. Era um pedacinho
quadrado de doce, uma mariola dessas que conhecemos, bem pequena. Embrulhada num
plástico transparente e com a etiqueta do preço: “$2”. Havia custado dois
pesos, não sei se uruguaios ou argentinos, mas algo que corresponde a centavos
do nosso Real. Tomaz perguntou onde ela havia conseguido
dinheiro para comprar, ela disse que tinha algum sobrando. Eles dividiram
aquela única mariola como se fosse um grande banquete, “es una delicia”, “humm”.
E o garoto oferecia para mãe, mandava que ela desse mais uma mordida, e intercalavam
com pequenos goles de água. Isso durou alguns minutos. Só eu sei como achei
aquela cena fantástica. ERA SÓ UMA MARIOLA, E ÁGUA DE UMA GARRAFA ENFERRUJADA. Pelo
menos era o que eu pensaria, até aquele dia. Pois não, não era só isso, eram
dois seres humanos que dividiam um belo sentimento entre si. Um amor verdadeiro
de quem cuida do outro, e que estavam transformando alguns minutos da vida
deles num momento especial e feliz.
Como reação natural de uma criança, Tomaz
pediu outra, e a mãe explicou que não tinha. Ele lamentou, mas entendeu, e
ajudou a arrumar a “bagunça”. Guardaram tudo e fecharam a bandeja. Sempre se
beijavam e se abraçavam. Minha cabeça “processava” tantos pensamentos que não
tive reação de conversar com eles para saber mais sobre o que estavam indo fazer
em Buenos Aires, em que trabalhava a mulher, onde estava o pai do menino,
enfim, eu só observava.
A mãe tirou da bolsa um netbook, também meio
velho, e deu para Tomaz brincar. Eles fez riscos aleatórios no “paint” sob
supervisão e elogios da mãe. Dizia que estava lindo, que ele seria um grande
artista, bastava se aperfeiçoar. Ela cuidava dele como se fosse o que tinha de
mais valioso.
Então, ela me disse que iria dar uma volta no barco
e perguntou se eu poderia guardar os assentos. Eu disse que sim, e eles saíram.
Não voltaram mais.
Quando vi pela janela Buenos Aires se aproximando
também me levantei e fui ao free shop comprar umas bobagens. O barco atracou, e
todas aquelas centenas de pessoas se voltaram para saída. Ainda os vi esperando
a fila andar na hora do desembarque. Mas não consegui mais me aproximar. Queria
ter conversado, queria ter ajudado de alguma forma. Mas durante o momento que estive
próximo, eu não consegui reagir, me pergunto o motivo até hoje, mas acho mesmo
que foi porque meus pensamentos estavam em alta velocidade. Quem me dera ter um
pacote de mariolas, e saber que aquela cena que presenciei se repetiria no futuro
por mais dez ou quinze vezes.
Tomaz e sua mãe me fizeram valorizar mais
momentos com as pessoas que amo, e me fizeram aprimorar conceitos sobre o “valor”
de bens materiais. Fiquei imaginando como o "almoço em família" saiu de moda nesse mundo contemporâneo onde não temos mais tempo pra nada, e como isso pode interferir de maneira geral nas relações entre as famílias. Aquela merenda tão simples, ganhou um "sabor" que deveríamos ter em tudo que fazemos.
Tomara que eles sigam felizes como me transpareceram ser. Torço
por isso.







