terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Fui no paraíso e voltei, mais sábio

Era uma bela manhã de domingo em Fernando de Noronha – PE, e chegava a hora de me despedir daquele paraíso. Havia passado toda semana realizando um trabalho para TV Golfinho, a emissora que produz um jornal local exibido apenas no arquipélago. O voo de volta para Recife era às 11h, então deixei o hotel às 9h e me dirigi ao aeroporto. É um pequeno terminal com dois guichês das companhias aéreas que operam o destino, duas lojinhas com artesanatos e outras lembranças da ilha, e uma lanchonete.

Chegando lá fui direto fazer o check-in e despachar minha bagagem, tudo normal, procedimentos que fazemos em qualquer aeroporto do mundo. Feito isso, resolvi esperar do lado de fora do terminal. O ar condicionado estava quebrado e lá fora estava mais ventilado, além disso, ficaria observando um pouco mais aquele lugar. Me sentei na rampa de acesso à porta onde também estavam encostados dois moradores da ilha. Na verdade eles eram taxistas, tinham “buggues” que atendiam a demanda no horário dos voos. Fiquei observando e ouvindo a conversa deles, até um momento que me surpreendi.
-Será que o “bichão” vem hoje?
-Nem sei, esses dias teve problema no pouso, tem muita garça na pista. Eu tenho pra mim que ele não vem não.

-Também acho que hoje ele não vem.
Claro que entendi, na hora, que falavam do avião. O bendito avião que eu estava ali esperando e que me levaria de volta ao continente. Aquilo me soou como algo do tipo: “será que aquele pássaro de ferro que às vezes aparece por aqui vai dar o ar da graça hoje?”.
Achei tão absurda aquela conversa, pensei: “Como assim, ‘será que vem’? Não é assim que funciona. Claro que vem!”. Estou num mundo moderno, civilizado, onde compramos passagens aéreas com simples toques na tela do celular. Existem órgãos que fiscalizam e regulamentam os serviços que usamos, enfim... Achei meio engraçado também, e fiquei pensando de onde que eles tiravam aquelas previsões, aquelas ideias.
Aí, eu pergunto a você que está lendo essa história. Você acha que o avião foi?
 
Pois é! NÃO foi!
Aquilo foi uma tapa na minha cara. Uma lição de como podemos enxergar de maneiras diferentes a mesma situação. E o fato pode ter várias explicações.
Pra mim, no meu “mundo civilizado” houve uma resposta “civilizada”. A comissária de terra da companhia disse que uma aeronave que faria o trecho Recife – Florianópolis havia apresentado problemas, e foi substituída pela que iria para Noronha. Havia sido uma forma de atingir o menor número de passageiros, já que mais de cem pessoas no Recife esperavam a viagem para Floripa, e talvez nem vinte estivessem indo ou voltando para o arquipélago. Essa foi a versão oficial.
Há uma outra. Também da minha cabeça, de quem já presenciou todo tipo de malandragem, ou “jeitinhos brasileiros”. Pra mim, não tinha aeronave quebrada coisa nenhuma. O fato de ter menos de vinte passageiros teria feito a “espertinha” companhia aérea cancelar o voo. Sem dúvida sairia bem mais barato pagar um almoço para aqueles passageiros e os colocar no voo da tarde, do que deslocar uma aeronave com capacidade para quase duzentas pessoas quando a lotação cabia numa van.
E a previsão daqueles taxistas, como explicar? Eles estavam certos, disso eu não tinha dúvida, da maneira deles de interpretação eles acertaram na mosca. Aí, eu aqui no meu “mundo moderno”, posso pensar que aquela situação era algo comum e que eles simplesmente observaram a quantidade de pessoas e deduziram que a companhia cancelaria o voo. Mas será que foi isso? Será que eles tiveram essa dedução consciente, calculada? Talvez sim, talvez não. Talvez eles não tenham certeza do motivo, apenas “sentem” o ambiente, o dia. Como os “descobridores de chuva” que temos nos nossos sertões Brasil a fora. Quem sabe?
 
Aquilo também me fez pensar como tantas outras coisas podem ser vistas de maneiras diferentes por culturas diferentes, mesmo sendo iguais. Quantos povos cultuaram a lua cheia como uma deusa, capaz de curar, de abençoar, de trazer coisas boas. E fizeram rituais para ela, com fogo, com flores, enfim... No nosso “mundo moderno”, na maioria das crenças, a lua não tem esse poder não. É bela, mas não tem poderes.
Mas quem nunca se pegou olhando pra lua cheia, fotografando, indo observá-la na beira do mar. E aquele momento lhe trouxe paz, lhe fez refletir sobre assuntos que estavam na sua cabeça, e que você buscava soluções? Acabamos fazendo uma oração ali, cada um pro seu Deus, pra sua Nossa Senhora “preferida”, pra algum ser que acreditamos estar acima de nós. E então? Essa danada dessa lua tem poder mesmo, né? Seja qual for sua crença. É só questão de interpretação. E se soubéssemos respeitar as interpretações dos outros não estaríamos neste mundo onde matamos uns aos outros.
Bem, Noronha me deu várias lições de vida. É um planeta onde moram cerca de três mil pessoas. Fica fácil d’agente observar as relações humanas quando o planeta é pequeno. Então, depois posto outras histórias de lá. Minhas análises sobre aquele pequeno planeta e a convivência entre seus seres.
Ah, eu tive que esperar mesmo o avião da tarde. Nem demorou! Voltei pra Vila dos Remédios, o centro da ilha, almocei, espiei a internet, e logo deu a hora de voltar ao continente.
 
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