Chegando lá fui direto fazer o
check-in e despachar minha bagagem, tudo normal, procedimentos que fazemos em
qualquer aeroporto do mundo. Feito isso, resolvi esperar do lado de fora do
terminal. O ar condicionado estava quebrado e lá fora estava mais ventilado,
além disso, ficaria observando um pouco mais aquele lugar. Me sentei na rampa
de acesso à porta onde também estavam encostados dois moradores da ilha. Na
verdade eles eram taxistas, tinham “buggues” que atendiam a demanda no horário
dos voos. Fiquei observando e ouvindo a conversa deles, até um momento que me
surpreendi.
-Será que o “bichão” vem hoje?
-Nem sei, esses dias teve
problema no pouso, tem muita garça na pista. Eu tenho pra mim que ele não vem
não.
-Também acho que hoje ele não vem.
-Também acho que hoje ele não vem.
Claro que entendi, na hora, que
falavam do avião. O bendito avião que eu estava ali esperando e que me levaria
de volta ao continente. Aquilo me soou como algo do tipo: “será que aquele
pássaro de ferro que às vezes aparece por aqui vai dar o ar da graça hoje?”.
Achei tão absurda aquela
conversa, pensei: “Como assim, ‘será que vem’? Não é assim que funciona. Claro
que vem!”. Estou num mundo moderno, civilizado, onde compramos passagens aéreas
com simples toques na tela do celular. Existem órgãos que fiscalizam e
regulamentam os serviços que usamos, enfim... Achei meio engraçado também, e
fiquei pensando de onde que eles tiravam aquelas previsões, aquelas ideias.
Aí, eu pergunto a você que está
lendo essa história. Você acha que o avião foi?
Pois é! NÃO foi!
Aquilo foi uma tapa na minha
cara. Uma lição de como podemos enxergar de maneiras diferentes a mesma
situação. E o fato pode ter várias explicações.
Pra mim, no meu “mundo civilizado”
houve uma resposta “civilizada”. A comissária de terra da companhia disse que
uma aeronave que faria o trecho Recife – Florianópolis havia apresentado
problemas, e foi substituída pela que iria para Noronha. Havia sido uma forma
de atingir o menor número de passageiros, já que mais de cem pessoas no
Recife esperavam a viagem para Floripa, e talvez nem vinte estivessem indo ou
voltando para o arquipélago. Essa foi a versão oficial.
Há uma outra. Também da minha
cabeça, de quem já presenciou todo tipo de malandragem, ou “jeitinhos
brasileiros”. Pra mim, não tinha aeronave quebrada coisa nenhuma. O fato de ter
menos de vinte passageiros teria feito a “espertinha” companhia aérea cancelar
o voo. Sem dúvida sairia bem mais barato pagar um almoço para aqueles
passageiros e os colocar no voo da tarde, do que deslocar uma aeronave com
capacidade para quase duzentas pessoas quando a lotação cabia numa van.
E a previsão daqueles taxistas,
como explicar? Eles estavam certos, disso eu não tinha dúvida, da maneira deles
de interpretação eles acertaram na mosca. Aí, eu aqui no meu “mundo moderno”,
posso pensar que aquela situação era algo comum e que eles simplesmente
observaram a quantidade de pessoas e deduziram que a companhia cancelaria o
voo. Mas será que foi isso? Será que eles tiveram essa dedução consciente,
calculada? Talvez sim, talvez não. Talvez eles não tenham certeza do motivo,
apenas “sentem” o ambiente, o dia. Como os “descobridores de chuva” que temos
nos nossos sertões Brasil a fora. Quem sabe?
Aquilo também me fez pensar como
tantas outras coisas podem ser vistas de maneiras diferentes por culturas
diferentes, mesmo sendo iguais. Quantos povos cultuaram a lua cheia como uma
deusa, capaz de curar, de abençoar, de trazer coisas boas. E fizeram rituais
para ela, com fogo, com flores, enfim... No nosso “mundo moderno”, na maioria
das crenças, a lua não tem esse poder não. É bela, mas não tem poderes.
Mas quem nunca se pegou olhando
pra lua cheia, fotografando, indo observá-la na beira do mar. E aquele momento
lhe trouxe paz, lhe fez refletir sobre assuntos que estavam na sua cabeça, e
que você buscava soluções? Acabamos fazendo uma oração ali, cada um pro seu
Deus, pra sua Nossa Senhora “preferida”, pra algum ser que acreditamos estar
acima de nós. E então? Essa danada dessa lua tem poder mesmo, né? Seja qual for
sua crença. É só questão de interpretação. E se soubéssemos respeitar as
interpretações dos outros não estaríamos neste mundo onde matamos uns aos
outros.
Bem, Noronha me deu várias lições
de vida. É um planeta onde moram cerca de três mil pessoas. Fica fácil d’agente
observar as relações humanas quando o planeta é pequeno. Então, depois posto
outras histórias de lá. Minhas análises sobre aquele pequeno planeta e a
convivência entre seus seres.
Ah, eu tive que esperar mesmo o
avião da tarde. Nem demorou! Voltei pra Vila dos Remédios, o centro da ilha,
almocei, espiei a internet, e logo deu a hora de voltar ao continente.
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