segunda-feira, 10 de março de 2014

Bagagem cheia, um skate quase fumado, e um garoto feliz

Era fim de temporada em Los Angeles, na (quase sempre ensolarada) Califórnia, e eu me preparava para retornar ao Brasil depois de um produtivo período de estudo e trabalho. Malas prontas, cheias, e uma última missão: decidir o que fazer com o skate que havia me acompanhado nos últimos meses.



Comprei o meu “Stella” em Venice Beach, a praia mais alternativa que já conheci na vida. Pessoas de todos os estilos circulam por lá. Há muitos artistas expondo seus trabalhos no calçadão, artesãos, músicos, tudo “junto e misturado” como diz a história. Uma boa batucada aqui, e 20 metros depois um violinista ou até mesmo um pianista se apresentando; homens hipnotizando cobras, cachorros que usam óculos escuros, e as lojinhas de maconha... tudo no pacote de Venice. A praia também é um dos destinos preferidos dos skatistas por ter uma estrutura bacana para prática do esporte.





Pois bem, eu precisava “desapegar” do meu longboard, com o coração na mão, mas sem opção. Havia ligado para a companhia aérea para entender como despachar um terceiro item, e me falaram que isso não era possível para voos que seguissem para o Recife, no Brasil. A cidade de São Paulo era a única exceção, onde é possível pagar por excesso de bagagem ou novos itens além das duas malas permitidas. Não era o meu caso. Com destino final "Recife" me informaram a única alternativa, colocar o skate dentro de uma das duas malas que eu já teria o direito despachar. Impossível, ambas completamente lotadas. Tinha que deixar o skate nas terras do Tio Sam.

Poderia ter dado para algum amigo, pra garota que esperava na parada de ônibus comigo todos os dias, toda arrebentada por amar o esporte e viver se arriscando em manobras, mas deixei as coisas acontecerem com a certeza de que me apareceria a pessoa certa.

No meu último dia em LA resolvi ir à Venice, onde toda essa história começou, imaginando que o skate deveria voltar pra lá. Algum sortudo que estivesse de bobeira passeando na praia ia ganhar um bom longboard “Stella”, fabricado em San Diego, também na Califórnia. Fui rever tudo, admirar aquela paisagem tão californiana, palmeiras altas, veleiros no mar, grandes aviões cruzando o céu o tempo todo, uma energia boa, de gente que gosta de viver. Até que me sentei embaixo de uma palmeira, ao lado de uma pista de skate, e fiquei procurando alguém que tivesse um skate velho, quebrado, enfim... Mas na certeza de que me apareceria a pessoa certa, a situação perfeita.


Foi aí que um homem se aproximou de mim:

- Would you like new trucks?

Apesar da palavra “truck” ser até comum para nós brasileiros, ela não me veio à cabeça naquele momento. E, então, perguntei:

- What's truck?

O moço fez cara de espanto, e apontando para uma caixa, soltou novamente só a palavra:

- Trucks.

O significado “caminhão”, enfim, me veio à cabeça. Mas, ele se referia ao eixo onde se colocam as rodas do skate.

- Ah, ok. Thank you, but my skate is new, I don´t need some new trucks now. - Agradeci dizendo que o skate era novo, e que naquele momento eu não estava precisando.

Ele sentou um pouco do lado, e percebi que estava com uma mulher, que entendi ser namorada/esposa. Quando o escutei comentar que o dia não estava pra peixe, ou melhor, para as vendas:

- Today is a bad day, I didn't sell anything.
- Don't worry, good time will come. - A mulher o consolou, dizendo que as coisas iam melhorar.

Foi aí que pensei em dar o skate para ele. Imaginei que seria útil para quem já trabalha com peças de skate. Podia vender e fazer alguma grana. Mas não me precipitei, continuei observando. Foi então que percebi que ambos usavam óculos escuros Ray Ban, E O MAIS GRAVE, ela tinha um iPhone 5s. Nada contra quem trabalha e compra com honestidade seus produtos preferidos. Mas minha gente, o meu iPhone ainda era 3s. (risos) Concluí que alguém que comprou um aparelho eletrônico lançado há menos de um mês no mercado mundial, e que não estava saindo por menos de 2 mil dólares, não estava precisando tanto assim de um skate, né? Vamos para o próximo, que o “Stella” continuava sem novo dono...

Fiquei rindo da minha cara e das conclusões dessa mente que não para de trabalhar e analisar o mundo um segundo sequer, até que um garoto que estava na pista de skate veio em minha direção.

- Nice skateboard! - Falou com um jeito alegre, típico dos elogios americanos.
-Thank you. - Agradeci.

Por um segundo ele ganhou credibilidade em ser o escolhido, ele tinha gostado do meu skate e o dele estava bem acabado. Mas foi só por um segundo mesmo.

Ele continuou:
- Do you have marijuana? Can you give some that?

Sim! Ele perguntou se eu tinha um pouco de maconha pra dar pra ele. O consumo da droga é QUASE normal por lá, pois é liberada, supostamente, para uso medicinal. Apesar da facilidade de se conseguir a droga sem nem precisar ir ao médico. Mas eu fiquei foi pensando como alguém poderia achar que uma criatura com a maior cara de careta feito eu poderia fumar maconha. Mas pensei tudo isso em um segundo só, e respondi, “de boa”:

- I don't have. I don't smoke. - Falei que não tinha, que não fumava.

Ele agradeceu e se virou para pista para acompanhar os colegas. E eu fiquei pensando: “esse danado ia fumar meu skate todinho”. Ainda bem que não dei pra ele, né?



Antes que meu skate virasse cinzas e fumaça, abandonei a missão “Venice” e fui para a vizinha, Santa Monica Beach. E já fui me perguntando “como não pensei nisso antes?”. Certamente, no meu lugar favorito, eu ia achar quem merecesse o presente.

Pois bem, já no Santa Monica Pier, fui me despedindo daquele lugar fantástico, do Bumba Gump, onde foram rodadas cenas de “Forrest Gump”; do Zoltar que fez parte da minha infância com o filme “Quero ser Grande”, rodado antes mesmo de eu nascer; do parque de diversão, dos churros de quase meio metro, e do pôr do sol mais bonito do Pacífico. Sentado, observando o sol se esconder no mar esqueci da missão, até que o sol mergulhou de vez na água. “Hora de levantar acampamento”, pensei.





 
  


Até imaginei que ia voltar pra casa sem doar o skate e passar a tarefa para minha “host”, uma jovem senhora negra, divertida, apaixonada por halloween, pizza e chocolate (“amargo e com amêndoas, por favor” – sempre pedia quando eu ia ao mercado), gente do bem, dona da casa onde morei neste período. Mas foi percorrendo o caminho de volta, ainda no píer, que resolvi descer pela praia e ir até o ponto onde ficam equipamentos de academia, aqueles lugares que assistimos nos filmes, ficam na areia, onde loiras de biquíni circulam de patins, e homens bombados fazem seus treinos (sim, é tudo verdade!). Foi então que o Universo me mostrou quem tinha sido a pessoa escolhida para ganhar o skate.

Tinham dois garotos e uma menina caminhando em minha direção, o mais velho devia ter uns 10 anos, já os mais novos uns 8 anos.

- Good skateboard! - Falou o mais velho.
- Did you like? - Perguntei se ele havia gostado. Ele disse que sim, então, sem perder tempo, sugeri que ele experimentasse, já esticando o braço para ele pegar o skate:
-Try.
- It's ok, I need to go now, my mother is waiting. - Ele respondeu que precisava ir, a mãe já estava esperando. Então, resolvi logo a situação:
- But, did you like?
- Yes, it's amazing.  
- What's your name? - Perguntei.
- James. - Respondeu.

Pensei que ele ia completar com o “Bond. James Bond”, mas não o fez.

- Then, get, James! It's a gift to you. - Falei pra ele levar, que aquele skate era pra ele.

O garoto arregalou os olhos, desconfiado, mas já com a mão no presente. E perguntou:

- Why?

Expliquei toda a história de que estava voltando ao Brasil e não poderia levar. E perguntei se ele queria que eu falasse com a mãe dele, ele respondeu que sim.

Enquanto ele me mostrava onde a mãe estava, os dois menores já corriam na direção dela gritando sem parar: “That man gave a new skateboard to James”. A mãe já olhava desconfiada em minha direção enquanto me dirigia a ela.

Me apresentei, expliquei tudo novamente, e ela logo sorriu, e comemorou de uma maneira que só os americanos fazem, chamam por Deus, o bom "oh my God", falam que não estão acreditando, agradecem, abraçam... (pelo menos é a visão que tive deles, há quem fale que são “frios”. Nem todos.).

Ela me falou que estaria vindo passar carnaval no Rio de Janeiro, agradeceu demais, e pediu para tirar uma foto junto com os filhos dela. Foi divertido.

Após a foto, James lançou o skate dele bem longe, com toda força, estava um pouco quebrado, meio velho. Uma tia dele, que também estava lá, saiu correndo para apanhar e falou algo do tipo “Não faça isso, James”. Mas ele já ia longe, em cima no novo brinquedinho. Passou por mim duas vezes ainda, deslizando sobre o chão, seguido pelos irmãos correndo, uma cena bonita de se ver. Missão cumprida. Time back home.