domingo, 7 de abril de 2013

Tem confusão que vem a cavalo

Era início de uma tarde de verão em Buenos Aires, um sol de “queimar o couro”, como diriam meus avós, e eu do lado de fora do Museu Nacional de Belas Artes esperando na fila a minha vez de entrar, junto aos amigos brasileiros que tinha acabado de conhecer no Cemitério da Recoleta (nunca imaginei que faria amizade em cemitérios, essa vida tem de tudo). Não sou o maior apreciador de exposições do tipo, museus não são minha principal programação nas viagens, mas como um bom turista não ia perder a oportunidade de apreciar obras de grandes nomes da arte. Van Gogh, Renoir, Manet, Picasso, o patrimônio do museu é grandioso, considerado o mais importante da Argentina.

Pois bem, entramos e nos dividimos entre os salões. As obras são mesmo de uma beleza incrível, única. Já pensou quantos dias, meses, ou anos, talvez, para se esculpir uma pequena estátua ou pintar uma enorme tela daquelas? Fico imaginando quem seriam aquelas pessoas, se seria prazeroso ou incômodo posar para um artista durante longos períodos, e se eles tinham ideia de que aquela obra iria atravessar séculos para ser vista por "curiosos da vida de antigamente". Aqueles traços, aquelas cores, trazem um pouco de um período e espaço em que não vivemos, e nos dão a chance de sentir um pouco o que era aquele estilo de vida que desconhecemos. Acho isso bem interessante.
Cansado, depois de visitar alguns salões, voltei para o início do prédio. Lá existem grandes bancos encostados na parede, certamente para idosos (como eu) descansarem as pernas um pouco. Me sentei ao lado de uma senhora, devia ter uns 80 anos. Muito bem arrumada, cabelos brancos, curtos e cacheados, óculos, joias, uma bolsa pendurada e uma bengala do lado.
Não há nada pior que esperar. – disse num espanhol bem carregado.
Olhei pro lado, não sabia se ela estava pensando alto, ou queria interação.
Você não acha? – completou.
Sim, ela queria interagir. E eu, enganado, como muitos, achando que espanhol e português são semelhantes, resolvi entrar na conversa.
Claro que sim. Não há nada pior.
Que horas são agora?
Ela falava em espanhol, mas eu entendia que era uma beleza (ou pensava que entendia).
Quatro e quinze (da tarde). – respondi.
Ela fez cara de raiva.

Marquei com uma amiga, já está mais de meia hora atrasada.

Pensei que se a amiga tivesse a mesma idade dela estaria mais que justificado. Não deve ser fácil sair por aí de bengala.

É brasileiro? – perguntou ela, já demonstrando que a conversa agora era comigo até a amiga chegar.

Sim, sou brasileiro.

Vacaciones? – Eis a palavra da discórdia.

Pensei que ela estava perguntando se eu estava na Argentina a trabalho. Vacaciones > Vocação > Profissão > Trabalho. Eu tinha feito a ligação “perfeita” entre as palavras. Só que não.

Não. Não estou a trabalho, estou passeando, de férias.

Veio a caballo?

Não senhora. É isso que estou a lhe explicar. Não vim a trabalho. – ela fingiu entender, eu também.

É muito bonita sua profissão! – exclamou ela com um sorriso no rosto.

Oi? Minha profissão? Eu nem tinha uma carteira de jornalista pendurada no pescoço.
Adoro caballos! Mas você veio de lá para cá a caballo?
Alguma coisa estava saindo errada na conversa.
Eu vim de férias mesmo, não vim a trabalho.
­Hum, que aventura! – disse ela toda empolgada.
Eu daria um beijo em quem me “acudisse” naquela conversa. De qual aventura ela estava falando?

Quantos caballos você tem?

Com essa frase dita, conclui a diferença entre as palavras. E sim, ela estava falando de cavalos.

Eu não tenho cavalos. – respondi, objetivo, pra ver se dava um rumo à conversa.
Mas como não? Você não veio do Brasil a cavalo? É muito corajoso. Parabéns!

Nossa Senhora do Google Tradutor, abençoa.
Não senhora, acho que nos perdemos na conversa. Não vim a cavalo, e nem a trabalho. Estou de férias! Onze meses nós trabalhamos, um mês nós saímos de férias. Consegue compreender?
Não tem nada de caballos então? – Mostrou-se decepcionada após colocar as mãos pra frente e fazer uma espécie de “pocotó, pocotó” para que eu tivesse certeza do que ela falava.
Não senhora, nem unzinho.
Quase não paramos mais de gargalhar. Ela era uma simpatia.

Vacaciones! – Ah, bendita palavra. – É que chamamos de “vacaciones” o que você chama de “férias”.

Entendi. Então, sim! Estou aqui na Argentina por motivos de “vacaciones”.

Continuamos rindo muito até que uma outra senhorinha se aproximou. Era a amiga dela. Tomou bronca, e insistiu logo em ir andar pelo museu.

Um momento. Este é meu amigo do Brasil que estava comigo enquanto você não chegava. Espere que vou me despedir. – Olha que senhorinha mais atenciosa. – Foi um prazer conversar com você, bom passeio... – até aí tudo bem – ...e sua profissão é linda, parabéns!
Hããã? Eu não tinha falado minha profissão em momento algum. Em que será que ela pensou que eu trabalhava depois dessa confusão toda?

Acenei com a cabeça, agradeci o elogio à minha profissão (seja lá qual for que ela tenha imaginado). Ela deu as costas e saiu. Fiquei rindo horas da situação, e nem pude ter raiva de quem “inventou” que vacaciones corresponde a férias. Pois essa confusão me gerou boas risadas. Até hoje fico pensando o quanto é bom essas situações, conversas "descompromissadas", assuntos saudáveis, bobos, às vezes. Num mundo que gira com tanta notícia ruim, em que vivemos sob stress, pressão, números, como é bom parar, dar risada, e sentir um pouco o real motivo de se estar vivo.

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