-Oi. (com tom de desconfiado).
-Preciso que você faça uma
história. Desde cedo recebo ligações de uma mulher chamada Lourdes. Ela tenta
atendimento desde a madrugada nos hospitais de João Pessoa, já foi em todos e
ninguém atende. Anote o celular dela.
Eu queria mesmo largar, estava
cansado e sou de carne e osso, mas essa “esticadinha” por uma boa causa era
mais confortante. Acho que todo jornalista se enche de felicidade quando
percebe que ajuda alguém com seu trabalho. Bem, eu telefonei.
-Alô? Dona Lourdes, por favor.
Uma voz fraca atendeu do outro
lado. Expliquei que era repórter e que minha chefe havia mandando que eu fosse
acompanhar a história dela de perto. Anotei o endereço e nos dirigimos ao
hospital, o segundo maior da capital.
Ao chegar lá vi que havia um Gol
branco (daqueles quadrados, antigos) estacionado na porta da recepção, aquela
área coberta onde as ambulâncias param. Um senhor no banco do motorista, uma
senhora no banco do passageiro que estava deitado, e uma mulher mais jovem do
lado de fora do carro segurando a mão dessa senhora.
Falei pra moça: - Sou da TV, dona
Lourdes é esta senhora?
Era ela sim. E neste momento ela
“apagou”, como alguém que guardou até o último estímulo de energia para saber
que estaria “protegida” com a chegada da imprensa. Começava ali uma das cenas
mais tristes que já presenciei na vida.
A mulher mais jovem era filha e o
senhor no banco do motorista era marido de dona Lourdes. Também havia uma
criança, um menino de uns nove anos, neto dela. Eram quase cinco horas da
tarde. Eles haviam saído às quatro da manhã de casa, peregrinado por todos os
hospitais da cidade, que diziam não poder atender por falta de vaga ou por não
ser prioridade. Era a segunda vez que estavam naquele hospital, no mesmo dia.
Dona Lourdes tinha algo mais avançado que hérnia de disco, já não andava mais,
sentia dores muito fortes e aguardava há meses uma cirurgia pelo SUS.
A filha passou a gritar
desesperada que a mãe estava morrendo, e que não podia aceitar que a falta de
uma maca impedisse que ela fosse atendida. Havia sido essa a justificativa do
hospital em não ter retirado ela do carro em momento algum. Mas foi após, ou
por causa, da chegada da nossa equipe que uma maca e dois enfermeiros
apareceram. Em meio ao desespero da família, dona Lourdes foi, enfim, colocada
pra dentro do hospital. A filha entrou junto.
Tentei conversar com o marido
dela, mas ele quase não conseguia falar, olhava pra baixo, não conseguia sequer
olhar no meu olho. Entendi o problema da doença, o trajeto que fizeram e o que
escutaram em cada hospital. E eu precisava gravar. Não estava ali como cidadão
comum (apesar de também estar), mas tinha um trabalho a ser feito, e o
cinegrafista estava registrando tudo o que acontecia. Nessas horas sempre nos
perguntamos se estamos fazendo a coisa certa, ou se estamos explorando a dor
dos outros. Não sei onde fica a linha entre o “sim” e o “não” em avançar, é algo
que depende do que estamos sentindo. Mas fui. Liguei o microfone e me
aproximei, tentei tirar mais algumas palavras daquele senhor. Só saia uma
palavra de cada vez. Eu tentava entendê-lo, e esperava que ele também entendesse
minha insistência.
Poucos minutos depois a filha apareceu
saindo na recepção. Veio em linha reta, em direção à câmera, parecia destinada a
falar, como se aquela decisão de falar fosse a maior certeza que ela tinha em
toda vida. Dona Lourdes havia sofrido uma parada cardiorrespiratória naquele
momento em que soube da presença da nossa equipe.
Essa moça chorava muito, mas
também tinha raiva na voz. Ela gritava como quem mandava um recado para o mundo
inteiro ouvir, para todos os seres que dividem esse planeta com ela.
- Minha mãe está lá dentro, toda
cheia de fios, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela está morrendo por
que eu não posso pagar um plano de saúde pra ela. Eu não tenho vergonha de
dizer isso não, aqui na televisão pra todo mundo ficar sabendo. Eu não posso
pagar. Se você é rico e pode, agradeça, se eu pudesse minha mãe não estaria
morrendo agora...”
Eu não consegui dar uma palavra
sequer. Não foi necessário fazer nenhuma pergunta, e eu nem conseguiria mais,
chorava tanto quanto ela, mesmo a dor não sendo minha. Mas de alguma maneira
também era. Ela falou muito, foram uns três minutos e meio. Falou de dor, de
sofrimento, de injustiça, de corrupção. Tinha um pouco de tudo naquele desabafo.
Eu olhava pra ela, e também observava o pai do lado. Ele estava encostado na
porta do carro aberta, olhava para o chão, e segurava a mão do neto. Nunca
esquecerei a expressão do rosto dele, de alguém que se sentia impotente,
derrotado, sem esperanças. Alguém que deve ter trabalhado duro uma vida inteira
e talvez até se culpasse por aquele momento, por achar que poderia ter feito
mais, ter feito melhor, e ter dado outra realidade de vida a quem amava. Ele conseguia
me passar todas essas informações, apenas com o silêncio, e a expressão de seu
rosto.
A filha de dona Lourdes
continuava o desabafo. Ela falou por muitos, ela clamou por milhões de outras
pessoas que dependem do SUS no nosso país. Ela só queria que as coisas
funcionassem como deveriam ser. Quando ela parou de falar, baixei o microfone,
segurei no braço dela e disse que a mãe ficaria boa, foi o máximo que consegui.
Dei meia-volta e entrei no carro da TV. Voltei arrasado pra emissora. Tentei
fazer o texto o mais rápido possível, não tinha cabeça para “caprichar”, apesar
de a situação merecer. Mas tinha consciência de que aquelas imagens e aquele
depoimento valeriam muito mais que qualquer texto. Falei ao editor do jornal
que assistisse todo depoimento, que era importante, e ao produtor que
monitorasse os boletins do hospital para acompanhar o caso. Fiz meu trabalho. E
fugi daquela história.
Eu não soube mais de nada, até
hoje. Não acompanhei, não perguntei na redação o que havia acontecido. Não sei
se voltaram ao caso e outras equipes foram reportar a continuação dessa
história. Fugi mesmo. Aquilo me doeu demais, saber que era verdade, com pessoas
de verdade me doeu. Por vezes tenho a reação de fugir da realidade, quando essa
vida real é cruel, violenta ou triste. Não acho que seja o melhor a fazer, mas
às vezes faço. Sou humano.
Mas esse dia me ensinou muito.
Não sei se minhas palavras conseguem passar o que senti, que foi mínimo diante
da dor que devia estar sentindo aquela família. Mas vale a reflexão de que
precisamos estar atentos à vida. Isso inclui nossas relações uns com os outros,
nossa com o mundo, e atenção aos que nos governam. São eles que distribuem o
dinheiro que pagamos em impostos e que podem evitar o sofrimento de famílias
como a de dona Lourdes. Pessoas que podem salvar vidas, ou acabar com elas.
Tantos milhões de pessoas tentando a felicidade, quantos milhões de obstáculos
para que elas consigam. Tomara que dona Lourdes tenha melhorado, conseguido a
cirurgia, quem sabe até montaram um negócio, um comércio, e estão bem melhores
financeiramente. Eu preferi dar esse final a história.
Ela e todas as outras Lourdes que estão sempre por lá. =/
ResponderExcluirCaramba, que situação. Mas eu também prefiro fazer os finais das histórias que vivo. Dói menos.
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