domingo, 3 de fevereiro de 2013

Quando nem a esperança resiste

Parecia um dia comum de trabalho. Eu estava repórter da afiliada ao SBT em João Pessoa – PB. Pautas de comunidade, o velho “esgoto estourado” onde a população pedia solução para o problema, pautas governamentais, e o fim do expediente quase chegando. Nossa equipe – cinegrafista, motorista/assistente e eu – voltava para a sede da emissora quando meu celular tocou. No visor vi que era a editora-chefe, pensei logo “vem bomba por aí, vou ter que esticar o expediente”. Que repórter não pensaria isso (risos).

-Oi. (com tom de desconfiado).
-Preciso que você faça uma história. Desde cedo recebo ligações de uma mulher chamada Lourdes. Ela tenta atendimento desde a madrugada nos hospitais de João Pessoa, já foi em todos e ninguém atende. Anote o celular dela.
Eu queria mesmo largar, estava cansado e sou de carne e osso, mas essa “esticadinha” por uma boa causa era mais confortante. Acho que todo jornalista se enche de felicidade quando percebe que ajuda alguém com seu trabalho. Bem, eu telefonei.
-Alô? Dona Lourdes, por favor.
Uma voz fraca atendeu do outro lado. Expliquei que era repórter e que minha chefe havia mandando que eu fosse acompanhar a história dela de perto. Anotei o endereço e nos dirigimos ao hospital, o segundo maior da capital.
Ao chegar lá vi que havia um Gol branco (daqueles quadrados, antigos) estacionado na porta da recepção, aquela área coberta onde as ambulâncias param. Um senhor no banco do motorista, uma senhora no banco do passageiro que estava deitado, e uma mulher mais jovem do lado de fora do carro segurando a mão dessa senhora.
Falei pra moça: - Sou da TV, dona Lourdes é esta senhora?
Era ela sim. E neste momento ela “apagou”, como alguém que guardou até o último estímulo de energia para saber que estaria “protegida” com a chegada da imprensa. Começava ali uma das cenas mais tristes que já presenciei na vida.
A mulher mais jovem era filha e o senhor no banco do motorista era marido de dona Lourdes. Também havia uma criança, um menino de uns nove anos, neto dela. Eram quase cinco horas da tarde. Eles haviam saído às quatro da manhã de casa, peregrinado por todos os hospitais da cidade, que diziam não poder atender por falta de vaga ou por não ser prioridade. Era a segunda vez que estavam naquele hospital, no mesmo dia. Dona Lourdes tinha algo mais avançado que hérnia de disco, já não andava mais, sentia dores muito fortes e aguardava há meses uma cirurgia pelo SUS.
A filha passou a gritar desesperada que a mãe estava morrendo, e que não podia aceitar que a falta de uma maca impedisse que ela fosse atendida. Havia sido essa a justificativa do hospital em não ter retirado ela do carro em momento algum. Mas foi após, ou por causa, da chegada da nossa equipe que uma maca e dois enfermeiros apareceram. Em meio ao desespero da família, dona Lourdes foi, enfim, colocada pra dentro do hospital. A filha entrou junto.
Tentei conversar com o marido dela, mas ele quase não conseguia falar, olhava pra baixo, não conseguia sequer olhar no meu olho. Entendi o problema da doença, o trajeto que fizeram e o que escutaram em cada hospital. E eu precisava gravar. Não estava ali como cidadão comum (apesar de também estar), mas tinha um trabalho a ser feito, e o cinegrafista estava registrando tudo o que acontecia. Nessas horas sempre nos perguntamos se estamos fazendo a coisa certa, ou se estamos explorando a dor dos outros. Não sei onde fica a linha entre o “sim” e o “não” em avançar, é algo que depende do que estamos sentindo. Mas fui. Liguei o microfone e me aproximei, tentei tirar mais algumas palavras daquele senhor. Só saia uma palavra de cada vez. Eu tentava entendê-lo, e esperava que ele também entendesse minha insistência.
Poucos minutos depois a filha apareceu saindo na recepção. Veio em linha reta, em direção à câmera, parecia destinada a falar, como se aquela decisão de falar fosse a maior certeza que ela tinha em toda vida. Dona Lourdes havia sofrido uma parada cardiorrespiratória naquele momento em que soube da presença da nossa equipe.
Essa moça chorava muito, mas também tinha raiva na voz. Ela gritava como quem mandava um recado para o mundo inteiro ouvir, para todos os seres que dividem esse planeta com ela.
- Minha mãe está lá dentro, toda cheia de fios, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ela está morrendo por que eu não posso pagar um plano de saúde pra ela. Eu não tenho vergonha de dizer isso não, aqui na televisão pra todo mundo ficar sabendo. Eu não posso pagar. Se você é rico e pode, agradeça, se eu pudesse minha mãe não estaria morrendo agora...”
Eu não consegui dar uma palavra sequer. Não foi necessário fazer nenhuma pergunta, e eu nem conseguiria mais, chorava tanto quanto ela, mesmo a dor não sendo minha. Mas de alguma maneira também era. Ela falou muito, foram uns três minutos e meio. Falou de dor, de sofrimento, de injustiça, de corrupção. Tinha um pouco de tudo naquele desabafo. Eu olhava pra ela, e também observava o pai do lado. Ele estava encostado na porta do carro aberta, olhava para o chão, e segurava a mão do neto. Nunca esquecerei a expressão do rosto dele, de alguém que se sentia impotente, derrotado, sem esperanças. Alguém que deve ter trabalhado duro uma vida inteira e talvez até se culpasse por aquele momento, por achar que poderia ter feito mais, ter feito melhor, e ter dado outra realidade de vida a quem amava. Ele conseguia me passar todas essas informações, apenas com o silêncio, e a expressão de seu rosto.
A filha de dona Lourdes continuava o desabafo. Ela falou por muitos, ela clamou por milhões de outras pessoas que dependem do SUS no nosso país. Ela só queria que as coisas funcionassem como deveriam ser. Quando ela parou de falar, baixei o microfone, segurei no braço dela e disse que a mãe ficaria boa, foi o máximo que consegui. Dei meia-volta e entrei no carro da TV. Voltei arrasado pra emissora. Tentei fazer o texto o mais rápido possível, não tinha cabeça para “caprichar”, apesar de a situação merecer. Mas tinha consciência de que aquelas imagens e aquele depoimento valeriam muito mais que qualquer texto. Falei ao editor do jornal que assistisse todo depoimento, que era importante, e ao produtor que monitorasse os boletins do hospital para acompanhar o caso. Fiz meu trabalho. E fugi daquela história.
Eu não soube mais de nada, até hoje. Não acompanhei, não perguntei na redação o que havia acontecido. Não sei se voltaram ao caso e outras equipes foram reportar a continuação dessa história. Fugi mesmo. Aquilo me doeu demais, saber que era verdade, com pessoas de verdade me doeu. Por vezes tenho a reação de fugir da realidade, quando essa vida real é cruel, violenta ou triste. Não acho que seja o melhor a fazer, mas às vezes faço. Sou humano.
Mas esse dia me ensinou muito. Não sei se minhas palavras conseguem passar o que senti, que foi mínimo diante da dor que devia estar sentindo aquela família. Mas vale a reflexão de que precisamos estar atentos à vida. Isso inclui nossas relações uns com os outros, nossa com o mundo, e atenção aos que nos governam. São eles que distribuem o dinheiro que pagamos em impostos e que podem evitar o sofrimento de famílias como a de dona Lourdes. Pessoas que podem salvar vidas, ou acabar com elas. Tantos milhões de pessoas tentando a felicidade, quantos milhões de obstáculos para que elas consigam. Tomara que dona Lourdes tenha melhorado, conseguido a cirurgia, quem sabe até montaram um negócio, um comércio, e estão bem melhores financeiramente. Eu preferi dar esse final a história.

2 comentários:

  1. Ela e todas as outras Lourdes que estão sempre por lá. =/

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  2. Caramba, que situação. Mas eu também prefiro fazer os finais das histórias que vivo. Dói menos.

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